O presidente Lula viajará aos Estados Unidos no domingo e retornará na terça-feira, 22 de setembro, para abrir a 81ª Assembleia Geral da ONU, em Nova York. A agenda internacional ocorrerá em meio à disputa pela Presidência da República, marcada por empate técnico nas pesquisas eleitorais entre Lula e Flávio Bolsonaro, e à crise no Supremo Tribunal Federal (STF).
A viagem foi confirmada pelo Ministério das Relações Exteriores. Como estabelece a tradição do evento, o Brasil fará o primeiro pronunciamento entre os 193 países-membros da ONU, seguido pela fala do presidente dos Estados Unidos, país que sedia a organização.
A expectativa é que Lula use o discurso para reforçar a defesa da soberania brasileira e tente obter ganhos políticos na reta final da campanha. O presidente indicou, em Porto Alegre, que esse tema terá espaço central na fala e afirmou que não aceita interferência dos Estados Unidos nas eleições brasileiras. Também disse ter avisado Donald Trump, por telefone: “Não se meta nas eleições brasileiras porque vai perder”.
Disputa política e crise no STF
O discurso ocorrerá enquanto a crise no STF pode entrar em nova etapa. O ministro Flávio Dino pediu vista por até 90 dias na avaliação sobre a abertura, ou não, de investigação a respeito de uma suposta relação entre o ministro Alexandre de Moraes e Daniel Vorcaro, apontado no texto como responsável pelo maior escândalo financeiro registrado no país.
Embora pesquisas mencionadas no texto indiquem que a crise não influencia diretamente a decisão de voto nas eleições de outubro, o episódio é descrito como uma crise institucional inédita que não passa despercebida pelos eleitores. Uma fala mais incisiva de Lula na ONU poderia, nesse contexto, produzir efeitos políticos difíceis de prever.
Para o cientista político Leandro Consentino, professor de Sociologia, Política e História da Economia no Insper, a abertura da Assembleia Geral reforça a tradição brasileira de atuação no multilateralismo. “As Nações Unidas são um foro multilateral por excelência”, afirmou. Na avaliação dele, Lula deve apresentar o Brasil como independente da disputa entre Estados Unidos e China e capaz de dialogar com diferentes países e blocos.
Consentino também considera que a ONU não é o espaço adequado para discutir as eleições brasileiras. Ainda assim, o momento político pode dar ao discurso um viés mais marcado pela defesa da soberania.
Relações com os Estados Unidos e mercado financeiro
Não há encontro formal agendado entre Lula e Donald Trump. Os dois, porém, podem se encontrar durante a Assembleia Geral, como ocorreu em 2025. Na ocasião, houve declarações sobre uma “química excelente”, mas os Estados Unidos mantiveram tarifas sobre importações brasileiras, enquanto o Brasil buscou novos mercados. Posteriormente, Lula teve contato presencial e amistoso com Trump na Casa Branca.
A fala de terça-feira, 22 de setembro, também poderá mencionar a deterioração das relações comerciais entre os dois países. Uma eventual reação de Trump se somaria a fatores que podem pressionar o mercado financeiro brasileiro: a proximidade de uma disputa eleitoral acirrada, o reajuste do Bolsa Família e a aproximação das eleições de meio de mandato nos Estados Unidos.
O texto também destaca que os juros dos títulos americanos estão no maior nível em duas décadas. No Brasil, o Copom reduziu a Selic a 13,75% na quarta-feira, 16, enquanto o Fed elevou sua taxa. O Banco Central permanece com duas diretorias vagas, situação que se aproxima de um ano, e depende da avaliação de Lula caso seja reeleito.
Em entrevista à TV Record na terça-feira, 15 de setembro, Lula afirmou que um banco central independente não resolve os problemas do mundo. “O que resolve é o presidente da República eleito ter o poder de interferir na economia, coisa que nós não temos mais”, disse.


