A Alternativa para a Alemanha (AfD), partido classificado pela inteligência do Estado alemão como uma organização perigosa de extrema direita, foi a principal vencedora das eleições regionais em Saxônia-Anhalt, no leste do país. A sigla recebeu 44% dos votos e conquistou 39 das 83 cadeiras do Legislativo estadual.
O resultado colocou a AfD como a maior força do parlamento local e abriu a possibilidade de que o partido indique o próximo governo do estado. Para isso, porém, a legenda terá de superar a oposição das demais forças políticas alemãs, que mantêm um cordão sanitário contra a extrema direita e rejeitam acordos ou apoio formal à sigla. O candidato apresentado pela AfD ao cargo foi Ultich Siegmund.
A escolha do novo governo ocorre por maioria simples. Uma eventual abstenção da Bündnis Sahra Wagenknecht (BSW) poderia permitir que os parlamentares da AfD alcancem os votos necessários para definir o comando do estado.
O peso da história e do descontentamento
A possibilidade de a extrema direita governar um estado alemão rompe com uma rejeição política construída ao longo de décadas. O nazismo continua associado a uma experiência histórica que a sociedade alemã considera além dos limites humanitários aceitáveis. Essa memória atravessa tanto o período de divisão do país, do pós-Segunda Guerra Mundial à queda do Muro de Berlim, quanto a Alemanha reunificada, consolidada a partir do início dos anos 1990.
A vitória da AfD, contudo, não é explicada apenas por esse passado. Para o jornalista e historiador Rafael Targino, pesquisador da Universidade Federal do Rio de Janeiro, a reunificação modificou profundamente as condições de vida no antigo território da Alemanha Oriental. “O processo de reestruturação da Alemanha, com a queda do Muro, criou uma região que foi efetivamente incorporada”, afirmou.
Na avaliação do historiador, a população que vivia sob um sistema que oferecia emprego, moradia, educação e saúde passou a enfrentar a dinâmica do capitalismo após a reunificação. A unificação alemã havia sido consolidada em 1871, sob a liderança de Otto von Bismarck, mas o processo mais recente de integração entre leste e oeste produziu novas desigualdades e tensões.
Targino também relaciona o avanço da AfD ao descontentamento atual com o sistema político e econômico. A desaceleração da economia, a guerra na Ucrânia e o aumento do custo de vida ampliaram o espaço para um partido que, embora tenha surgido com foco importante na migração, passou a se apresentar como alternativa ao modelo político dominante.
Eleitores decepcionados
Um levantamento da Infratest Dimap indicou que 67% dos eleitores consideraram que a AfD compreendeu melhor do que os demais partidos a sensação de insegurança existente em Saxônia-Anhalt. Mais de 50% disseram que a sigla está mais próxima das preocupações da população do que outras legendas alemãs.
A preferência é especialmente expressiva entre os jovens. Nesse grupo, democratas-cristãos e social-democratas, partidos que participaram do establishment político alemão nos últimos anos, são raramente apontados como forças capazes de oferecer respostas satisfatórias para o futuro do país.
O analista político alemão Carsten Hanke, ex-membro do Die Linke e observador independente, afirma que o isolamento da AfD não resolve necessariamente o descontentamento que levou parte dos eleitores a apoiar o partido. “Nem todos os eleitores da AfD são de extrema direita ou fascistas. Pelo contrário, são cidadãos que estão irritados com o sistema e com a forma como essa política é conduzida”, disse.
Hanke sustenta que a esquerda alemã não dispõe de uma força política suficientemente unida para defender os direitos da classe trabalhadora, das pessoas socialmente vulneráveis e dos grupos desfavorecidos, mantendo também o internacionalismo entre movimentos progressistas.
A posição da BSW
A BSW, legenda mais à esquerda do parlamento de Saxônia-Anhalt, foi criada por Sahra Wagenknecht, ex-membro do Parlamento Europeu que deixou o Die Linke. A formação do novo partido ocorreu após a insatisfação de Wagenknecht com a legenda, criada em 2007 pela fusão do Partido Socialismo Democrático e da Alternativa Eleitoral para o Trabalho e Justiça Social.
A BSW defende proteção social e maior presença do Estado na economia, mas também critica políticas migratórias e pautas identitárias. Assim como a AfD, a sigla defende que a Alemanha deixe de enviar recursos para a Ucrânia na guerra com a Rússia.
Na eleição de Saxônia-Anhalt, a BSW inicialmente propôs um governo suprapartidário, capaz de dialogar com diferentes legendas. Depois que essa alternativa não avançou, admitiu a possibilidade de se abster na escolha do novo chefe de governo. Para Hanke, essa decisão favoreceria o fortalecimento da extrema direita, embora ele também reconheça a necessidade de compreender as razões que levaram parte da sociedade a apoiar a AfD.
Economia e desigualdade no leste
A crise econômica contribui para o ambiente de insatisfação. Em 2025, o Produto Interno Bruto alemão cresceu 0,2%, depois de recuar 0,5% em 2024 e 0,9% em 2023. Em julho, as exportações caíram pela primeira vez em cinco meses, sinalizando que a recuperação poderia perder força.
Empresas passaram a decretar falência ou a fechar fábricas e pontos de comércio. Dados do Instituto Leibniz de Pesquisa Econômica de Halle indicaram que a taxa de insolvência entre sociedades de pessoas e sociedades de capital em junho foi 80% superior à média registrada para o mesmo mês entre 2016 e 2019, antes da pandemia de Covid-19.
Essas duas categorias respondem por cerca de 90% dos empregos afetados por insolvências e por quase todo o crédito envolvido nesses processos. O instituto registrou 17,6 mil insolvências em 2025, o maior número das últimas duas décadas. Na indústria, 11 mil empresas encerraram as atividades no ano passado.
Os impactos são maiores nos estados do leste. Após a reunificação, uma parcela importante da população migrou para o oeste. Embora os estados da antiga República Democrática Alemã correspondam a pouco mais de um terço do território atual, os moradores do leste representam 15% da população alemã.
A expansão do modelo econômico liberal não eliminou as desigualdades sociais da região. As privatizações realizadas no início dos anos 1990 não cumpriram as promessas associadas à reorganização econômica, alimentando a percepção de que a integração ao capitalismo foi acompanhada por expectativas não realizadas.
Reações e próximos passos
O chanceler Friedrich Merz afirmou estar profundamente chocado com o resultado e acusou a AfD de promover limpeza étnica. Para Targino, é improvável que os partidos de maior força política passem a cooperar com a legenda de extrema direita, embora a votação possa antecipar novos avanços eleitorais da sigla.
O resultado também provocou reações fora da Alemanha. O premiê espanhol Pedro Sánchez classificou a vitória como um alerta sobre o avanço da extrema direita na Europa e no mundo. Espanha, Itália e França se preparam para eleições em 2027.
Na França, a Reunião Nacional, partido liderado por Marine Le Pen, aparece como favorita para a eleição presidencial de abril do ano que vem. Na Alemanha, a AfD passou de uma presença política pequena a uma das principais ameaças à institucionalidade democrática, combinando o descontentamento presente com as feridas históricas do país.


