O Ano Cultural Brasil-China de 2026 ocorre em um momento de expansão dos contatos entre os dois países, impulsionados não apenas por governos e instituições, mas também por influenciadores que apresentam a China ao público brasileiro nas redes sociais. Em plataformas como TikTok e Instagram, experiências cotidianas, informações sobre o idioma e referências culturais passaram a circular de maneira mais direta.
A presença chinesa no imaginário brasileiro já havia ganhado força nos anos 2000 e no início da década seguinte, período associado à ampliação do comércio bilateral e ao interesse pelo desenvolvimento material, científico e tecnológico da China. Naquele momento, jornais de circulação nacional tinham papel central na formação das percepções sobre investimentos, empresas, comércio e infraestrutura. Essa mediação continua existindo, mas hoje divide espaço com criadores independentes.
Influenciadores como mediadores culturais
Entre esses novos atores está Manuela Musskopf, professora de mandarim e criadora de conteúdo que viveu em Chongqing na infância. Atualmente, ela produz vídeos sobre a língua, a cultura e o cotidiano chinês e reúne cerca de 155 mil seguidores no Instagram e no TikTok, onde atua como @luidiomas.
Manuela afirma que parte do público entra em contato com a China por seus vídeos sem ter recebido anteriormente informações não negativas sobre o país. “Eu lido com isso procurando ser sempre muito informativa e apresentar fatos incontestáveis acima de opiniões pessoais”, disse.
A atuação de criadores como ela funciona como uma forma de tradução cultural. As experiências chinesas são interpretadas a partir de referências brasileiras, o que permite apresentar costumes e práticas de uma sociedade distante usando códigos familiares ao público. O conteúdo também combina informação sobre o mandarim com elementos da história e da cultura chinesa.
A popularização desse tipo de material ocorre ao mesmo tempo em que a China amplia sua presença econômica e política. Avanços tecnológicos e relações com outros países também alteraram a associação internacional ao modelo “Made in China”, que passou a ser relacionado a inovações e insumos considerados indispensáveis no texto.
Tendências digitais como o “Chinamaxxing”, movimento em que jovens não chineses adotam hábitos e estilos de vida associados à China, mostram como referências do país passaram a integrar comunidades virtuais ocidentais. A circulação de vídeos produzidos por pessoas que vivem na China também é apresentada como uma maneira de tornar experiências cotidianas mais acessíveis.
Mudança no ambiente internacional
A transformação das percepções brasileiras sobre China e Estados Unidos ocorre em um cenário de perda de popularidade dos Estados Unidos como referência de poder de influência no país. Uma pesquisa do Pew Research Center indica que a diferença entre as avaliações favoráveis aos dois países, ampla em 2014, diminuiu ao longo da última década. O movimento foi atribuído principalmente à queda da avaliação positiva dos Estados Unidos, e não a um crescimento equivalente da aprovação da China.
A diplomacia chinesa passou a acompanhar essa mudança. Em uma coletiva realizada em 6 de fevereiro de 2026, Lin Jian, porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da China, comentou a tendência de estrangeiros se interessarem cada vez mais pelo país e incentivou visitas turísticas. “Fico feliz em ver que cada vez mais amigos estrangeiros demonstram interesse”, afirmou.
No Brasil, instituições como o Ibrachina trabalham para incluir datas relacionadas à cultura chinesa nos calendários oficiais de cidades brasileiras. A medida já é lei em São Paulo, Rio de Janeiro, Recife, Foz do Iguaçu e Campinas.
Redes sociais e política externa
O crescimento dos influenciadores não substitui os canais tradicionais de aproximação. Embaixadas, institutos culturais e cobertura jornalística continuam participando da difusão de informações sobre a China, enquanto os criadores individuais oferecem uma mediação descentralizada, com a mesma língua e repertórios culturais semelhantes aos do público brasileiro.
A política externa também cria condições materiais para que essa aproximação avance. A isenção de vistos entre Brasil e China, negociada em 2025-2026, é apresentada como um mecanismo capaz de facilitar viagens e ampliar a circulação de relatos pessoais entre os dois países. Mais deslocamentos podem alimentar tanto o intercâmbio cultural quanto a produção de conteúdo nas plataformas digitais.
Esse processo, porém, envolve controvérsias. A ampliação do acesso à cultura chinesa pode conviver com romantização, redução da diversidade cultural e confusão entre interesse genuíno e consumo superficial de tendências. Ainda assim, o resultado observado é o aumento do interesse e da familiaridade de brasileiros com a China contemporânea.
O Ano Cultural Brasil-China de 2026 representa um momento de teste para essa combinação entre diplomacia formal, mobilidade internacional e redes sociais. O desenvolvimento dessa aproximação dependerá de saber se a interação entre instituições e experiências individuais se consolidará como uma forma duradoura de intercâmbio ou permanecerá vinculada à instabilidade das tendências digitais.



