Ana Bolena foi rainha consorte da Inglaterra por pouco tempo, mas sua relação com Henrique VIII esteve no centro de uma transformação política e religiosa que separou o trono inglês da Igreja Católica. Ela se casou secretamente com o rei em janeiro de 1533, foi coroada em junho daquele ano e morreu decapitada em 19 de maio de 1536.
A ruptura não pode ser atribuída apenas à paixão de Henrique por Ana. O processo envolveu a tentativa de anular o casamento do rei com Catarina de Aragão, a falta de um herdeiro homem, a disputa sobre a autoridade do papa e a afirmação do poder da monarquia inglesa. Entre 1533 e 1536, essas questões levaram à formação da Igreja Anglicana.
Da formação na corte ao relacionamento com Henrique VIII
Filha de Sir Thomas Bolena e Elizabeth Howard, Ana pertencia a uma família que havia ampliado sua posição social depois que seu avô, Geoffrey, se tornou prefeito de Londres. Ainda adolescente, em 1513, ela foi enviada à Áustria para integrar a corte de Margarida, Arquiduquesa da Áustria. Depois, passou cerca de sete anos na corte francesa, inicialmente como acompanhante de Maria Tudor e, mais tarde, na casa da rainha Claude.
A experiência lhe deu fluência em francês, habilidade para a dança e conhecimento da etiqueta cortesã. Ana voltou à Inglaterra em 1521 ou 1522 e passou a frequentar a corte de Catarina de Aragão, esposa de Henrique VIII. Sua erudição e suas maneiras lhe renderam destaque.
A irmã mais velha de Ana, Mary Bolena, também estava na corte e havia se tornado amante do rei. Quando Henrique se voltou para Ana, ela resistiu às investidas. A historiadora Estelle Paranque afirma que Ana não aceitaria ocupar apenas a posição de amante: pretendia ser companheira, rainha e mãe de filhos legítimos.
Antes de se aproximar do rei, Ana tentou se casar com Henry Percy, herdeiro do condado de Northumberland. O Cardeal Wolsey impediu o relacionamento, e Percy foi obrigado a se casar com Mary Talbot. Ana se afastou da corte, mas retornou em 1524 ou 1525.
A anulação do casamento e a separação de Roma
Henrique VIII estava frustrado porque Catarina de Aragão não havia lhe dado um filho homem. Em 1527, ele buscou uma anulação que demonstrasse que seu casamento nunca havia sido legítimo. O rei argumentava que a união contrariava o livro de Levítico (20:21), pois Catarina havia sido casada com Arthur, irmão mais velho de Henrique. Arthur morreu em abril de 1502, depois de se casar com Catarina em novembro de 1501.
Durante seis anos, o papa Clemente VII recusou a anulação, sob pressão de Carlos V, sobrinho de Catarina e rival de Henrique. O relacionamento entre Ana e o rei começou por volta de 1532. Em janeiro de 1533, os dois se casaram em segredo; a união foi anunciada na Páscoa daquele ano. Em 23 de maio, Thomas Cranmer, arcebispo da Cantuária, declarou nulo o casamento de Henrique com Catarina. Em junho, Ana, grávida de seis meses, foi coroada rainha consorte.
Em setembro, ela deu à luz Elizabeth, futura rainha da Inglaterra. O papa declarou ilegítimo qualquer filho do casal e ordenou que Henrique abandonasse Ana. Diante da recusa papal, o rei decidiu criar uma estrutura religiosa sob sua própria autoridade.
Em 1534, o Ato de Supremacia tornou Henrique líder supremo da Igreja da Inglaterra e formalizou a separação da Inglaterra em relação à Igreja Católica Romana. A nova instituição manteve características semelhantes às da Igreja Católica nos primeiros anos, mas substituiu o papa pelo monarca como autoridade máxima.
A partir de fevereiro de 1535, negar a supremacia do rei passou a ser crime de alta traição. Sir Thomas More e John Fisher, bispo de Rochester, foram executados por não aceitarem o Ato de Supremacia. Há também a possibilidade de que Ana tenha apresentado a Henrique o livro “A Obediência de um Homem Cristão”, de William Tyndale, obra que defendia a autoridade das palavras de Deus contidas na Bíblia acima do poder papal.
A queda e as interpretações sobre Ana
Henrique VIII passou a procurar outro casamento, desta vez com Jane Seymour, e acusou Ana de adultério, incesto e feitiçaria. Os historiadores consideram que essas acusações não tinham substância. Em 2 de maio, Ana foi presa e levada para a Torre de Londres. Seus cinco supostos amantes, entre eles seu irmão, foram julgados, condenados e executados.
Ana foi condenada no dia 15. Seu casamento com Henrique foi anulado no dia 17, e ela foi decapitada no dia 19 de maio de 1536. Henrique e Jane se casaram mais tarde no mesmo ano.
A imagem de Ana mudou conforme o período e o grupo que a retratou. Ela foi descrita como manipuladora, vítima, heroína da Reforma Protestante ou símbolo da tirania do rei. Estudos mais recentes procuram situá-la entre esses extremos. Sua trajetória permanece ligada à transformação religiosa da Inglaterra, mas a própria complexidade do processo impede que ela seja vista apenas como a mulher responsável pela ruptura com Roma.


