VLORA — Os destroços do navio-hospital Po, afundado em 1941 durante a Guerra Greco-Italiana, tornaram-se um abrigo para diferentes animais marinhos na baía de Vlora, na Albânia. Entre eles estão o peixe-leão, espécie invasora em expansão no Mediterrâneo, e uma foca-monge-do-mediterrâneo, registrada no local em agosto de 2023.
Uma investigação feita entre 2022 e 2024 identificou 28 espécies de peixes no entorno do naufrágio, além de agrupamentos de ovos de lulas e outros organismos. Os resultados foram publicados em julho na revista Frontiers in Ocean Sustainability.
Um recife artificial no local do naufrágio
O Po foi atingido por um torpedo lançado por um avião britânico Fairey Swordfish. Atualmente, mais de 80% da superfície da embarcação está coberta por vida marinha. Metais, cavidades e outras irregularidades dos destroços formam áreas de fixação para algas e pequenos organismos, que atraem animais em busca de alimento e proteção.
Esse processo é chamado de formação de um recife artificial: estruturas submersas passam a funcionar como habitats, oferecendo abrigo e condições para o estabelecimento de comunidades marinhas. No caso do Po, o estudo reuniu dados específicos sobre a fauna associada aos destroços e sua influência no ambiente ao redor, informações que ainda não estavam disponíveis para o naufrágio.
Peixe-leão avança no Mediterrâneo
O peixe-leão, identificado como Pterois miles, é nativo do mar Vermelho e de áreas do oceano Índico Ocidental. A espécie vem ampliando sua distribuição no Mediterrâneo, em um movimento relacionado à entrada de organismos tropicais pelo Canal de Suez e ao aquecimento das águas.
Os pesquisadores registraram até sete exemplares simultaneamente perto do Po. Para os autores do estudo, o naufrágio pode funcionar como um ponto de apoio, oferecendo abrigo enquanto esses animais ocupam novas áreas. O registro está entre os mais setentrionais da espécie no mar Adriático.
Simone Modugno, mergulhadora científica da Universidade de Ferrara, na Itália, e primeira autora do estudo, afirmou que os efeitos das mudanças climáticas já são “bem conhecidos e previsíveis”. Para ela, o aspecto mais preocupante é “a velocidade com que essas mudanças climáticas estão ocorrendo”. A pesquisadora também mencionou temperaturas excepcionalmente elevadas e alterações na salinidade como fatores associados ao avanço do peixe-leão. Ela prevê que o peixe-fogo-diabo poderá se tornar um problema sério na região nos próximos dez anos.
Foca-monge volta a ser registrada
Em agosto de 2023, uma foca-monge-do-mediterrâneo, Monachus monachus, foi observada descansando entre as cavidades do Po. A espécie não era confirmada na baía de Vlora desde 1996.
As focas-monge costumam usar cavernas marinhas protegidas, sobretudo em áreas costeiras mais isoladas. O avanço do turismo e de outras atividades humanas reduziu esses espaços, enquanto o emaranhamento em equipamentos de pesca também representa um risco para a espécie.
As cavidades do naufrágio podem oferecer um local de descanso em uma região onde os habitats naturais estão sob pressão. O registro não indica que o Po substitua o ambiente natural da foca, mas mostra que estruturas artificiais podem ganhar importância quando esse ambiente se torna mais fragmentado.


