Novas remoções de estruturas atingiram nesta quarta-feira (2) famílias que continuam na região de Santa Luzia, na Cidade Estrutural, no Distrito Federal. O Movimento Vida & Água (MVA) afirma que crianças e adolescentes estão entre os moradores, alguns abrigados sob árvores enquanto tentam refazer os abrigos destruídos.
A coordenadora do MVA no Eixo 4, que reúne Estrutural e Vicente Pires, Carmélia Teixeira, diz que as pessoas afetadas pela operação de 27 de agosto permaneceram no local e voltaram a montar estruturas depois das derrubadas. “Eles estão ficando no relento”, relatou.
A Secretaria de Estado de Proteção da Ordem Urbanística do Distrito Federal (DF Legal) informou que a operação de 27 de agosto desfez cerca de 250 estruturas. O órgão declarou que somente duas eram usadas como moradia e que aproximadamente dez pessoas viviam na área.
Disputa sobre a operação e o incêndio
A área fica perto do Parque Nacional de Brasília e está localizada em uma região de proteção ambiental. De acordo com a DF Legal, as ações buscam impedir novas ocupações e o parcelamento irregular do solo. A secretaria também afirmou que as operações fazem parte de uma sequência de intervenções promovidas pelo Governo do Distrito Federal (GDF).
A DF Legal sustenta que muitas pessoas chegaram ao local depois de perceberem a movimentação das equipes. O órgão acusa integrantes da ocupação de queimar objetos e atacar servidores públicos durante a ação. A Polícia Civil do Distrito Federal (PCDF) investiga o caso, segundo a secretaria.
A origem do incêndio também é contestada. A versão da DF Legal é que ocupantes atearam fogo em objetos para tentar interromper a operação e protestar contra as derrubadas. A secretaria diz ainda que a maior parte das estruturas estava vazia e não guardava pertences, e que os poucos moradores encontrados puderam retirar seus objetos antes da remoção dos barracos.
A DF Legal não respondeu especificamente aos relatos de que crianças e moradores teriam sido atingidos por gás ou spray de pimenta. Informou, porém, que o Conselho Tutelar acompanhou a operação.
Atendimento e divergências sobre acolhimento
A Secretaria de Desenvolvimento Social do Distrito Federal (Sedes-DF) informou que duas famílias aceitaram ser atendidas por suas equipes. Os profissionais avaliaram o acesso a programas e benefícios sociais, conforme o perfil e os critérios de elegibilidade.
As famílias já eram acompanhadas pelos Centros de Referência de Assistência Social (Cras) de Ceilândia e Samambaia e continuam vinculadas à rede socioassistencial, segundo a Sedes-DF. A secretaria ofereceu acolhimento institucional, mas as duas famílias recusaram o serviço.
Carmélia afirma que, apesar do atendimento, os moradores seguem na região. “A reivindicação das famílias é pela moradia”, disse.
O MVA contesta a presença de órgãos de assistência e afirma que as famílias não receberam ajuda depois das derrubadas. A DF Legal, por outro lado, declarou que Sedes, Companhia de Desenvolvimento Habitacional do Distrito Federal (Codhab) e Conselho Tutelar estiveram no local e atenderam pessoas que disseram morar na área. A Sedes-DF não informou quantas crianças e adolescentes faziam parte das famílias atendidas.
As ações na região já ocorriam antes de agosto. Em julho, segundo a DF Legal, foram retiradas quase 200 estruturas precárias de madeira e lona, desfeitos mais de 10 quilômetros de cercamento e descaracterizados aproximadamente 500 lotes considerados ilegais. Nesta quarta-feira (2), o movimento relatou a continuidade das derrubadas e da reconstrução dos abrigos pelas mesmas famílias afetadas em 27 de agosto.



