Quase 1,1 mil pessoas mortas nos ataques de 11 de setembro de 2001 ainda não tiveram restos mortais associados às suas identidades. O número representa aproximadamente 40% das 2.753 vítimas registradas nas Torres Gêmeas e no Pentágono. Sem a identificação, esses restos não puderam ser enviados às famílias nem receber um enterro.
A busca continua em um laboratório de Nova York, nos Estados Unidos, onde fragmentos humanos recuperados dos escombros são submetidos a exames de DNA. Os resultados são comparados com amostras fornecidas por parentes, incluindo material obtido de escovas de dentes, lâminas de barbear e outros objetos pessoais.
Genealogia genética amplia as possibilidades
O avanço mais recente combina a análise genética tradicional com a genealogia genética. No mês passado, o laboratório anunciou a identificação de restos mortais desconhecidos, a primeira em um ano. A família pediu que a identidade da mulher não fosse divulgada.
O procedimento começa com a extração de material genético dos fragmentos. Quando há DNA suficiente, um laboratório externo produz uma sequência genética completa. Integrantes da Polícia de Nova York então procuram possíveis vínculos familiares por meio de ferramentas de genealogia genética. Se uma correspondência é encontrada, o caso retorna ao Instituto Médico Legal para novos testes, que confirmam ou descartam o parentesco.
A técnica pode ser decisiva porque alguns fragmentos não correspondem às amostras já entregues pelas famílias. Mark Desire, diretor assistente de biologia forense do Gabinete do Médico Legista de Nova York, afirmou que existem 47 conjuntos de restos com perfis completos de DNA que não coincidem com nenhuma das cerca de 17 mil amostras fornecidas por parentes. A possibilidade é que alguns mortos tenham familiares que nunca procuraram o laboratório ou não tenham disponibilizado material genético.
O médico legista-chefe de Nova York, Jason Graham, classificou a estratégia como uma nova frente para o trabalho. “Realmente descobrimos uma inovação revolucionária que, espero e acredito, abrirá as portas para muitas outras identificações”, disse Graham.
Quase 22 mil fragmentos recuperados
A extensão dos escombros ajuda a explicar a duração da operação. Após o colapso das torres, o material formou uma montanha de aproximadamente 21 metros de altura e foi levado para um aterro em Staten Island. Ali, passou por escavação, triagem e separação em busca de evidências e restos humanos.
A escavação foi encerrada oficialmente em 2002, mas a procura prosseguiu. Em 2006, mais de 700 fragmentos ósseos foram encontrados no telhado de um prédio próximo ao antigo Deutsche Bank. A descoberta levou à retomada dos trabalhos na região, que continuaram até 2014 e resultaram na recuperação de aproximadamente outros 2 mil fragmentos. Ao todo, quase 22 mil fragmentos de restos humanos foram recuperados desde os ataques.
Material degradado limita os testes
O fogo, a água usada para apagá-lo, o combustível de aviação, o diesel, produtos químicos, a luz solar, o mofo e as bactérias degradaram o DNA nos escombros. Segundo Desire, todos esses elementos estavam presentes no Marco Zero.
Nos primeiros anos, os cientistas utilizaram impressões digitais, registros odontológicos e técnicas de DNA disponíveis naquele período. Com a evolução dos métodos, tornou-se possível extrair material genético de fragmentos ósseos que antes seriam considerados inutilizáveis. Ainda assim, parte das amostras sofreu degradação pelo calor a ponto de não permitir a extração de DNA.
Cada exame também pode consumir parte do fragmento. Como a quantidade disponível é limitada, os investigadores precisam avaliar quando vale a pena repetir um teste. Desire disse que há restos mortais que foram analisados 10, 15 vezes ao longo dos anos, sem identificação.
O Gabinete do Médico Legista de Nova York voltou a pedir que as famílias forneçam novas amostras de referência. A presença de mais parentes nas comparações pode ampliar as chances de encontrar correspondências para os restos ainda não identificados.


