A busca por Paulo César Farias é, para Xico Sá, uma porta de entrada para a política brasileira dos primeiros anos após a ditadura. Em “O Tesoureiro”, livro que será publicado pela Todavia, o escritor e jornalista recupera a investigação sobre o desaparecimento do tesoureiro de Fernando Collor de Mello e descreve uma época em que a notícia dependia de telefonemas, documentos obtidos com fontes e longas incursões pelas ruas.
O caso mobilizava o país. Depois que sua prisão foi decretada, PC Farias desapareceu, e Sá obteve a informação de que ele estava em Londres. A procura terminou meses depois, quando PC foi preso na Tailândia. No ano seguinte, foi condenado pelo STF. Em 1996, acabou encontrado morto ao lado da namorada, Suzana Marcolino. O crime continua sem esclarecimento.
Um desaparecimento transformado em narrativa popular
No trecho, Sá lembra que o caso era acompanhado como uma novela. A repercussão, escreve, superava a do coronel José Inocêncio, personagem de “Renascer”, teledrama exibido pela TV Globo naquele momento. A pergunta sobre o paradeiro de PC Farias aparecia nas conversas e também alcançava o círculo familiar do repórter, que recebia cobranças até por telefone.
O jornalista recorda a própria ansiedade durante a cobertura. Em uma das passagens, conta que telefonava de madrugada para Brigitte Montfort, nome fantasia de uma fonte conhecida na boate Coquetel Drink's, em Maceió. A personagem dizia trabalhar a partir do balcão do estabelecimento e usava um codinome inspirado na espiã dos livrinhos de bolso ZZ7, coleção da Editora Monterrey.
A investigação também se misturava à vida noturna de São Paulo. Mestre Libânio, conhecido como Charles Bronson e dono da boate Farewell, na região da rua Augusta, reunia as moças do estabelecimento para ouvir as histórias sobre PC. O ambiente tinha trilha de suspense ao piano, em referência ao personagem Sam, de “Casablanca”.
O tesoureiro e o dinheiro da campanha
Sá apresenta Paulo César Farias como o homem ligado à ascensão e à queda de Collor, o primeiro presidente eleito por voto popular depois da ditadura no Brasil e também o primeiro a perder o mandato após um processo de impeachment. Conhecido em Maceió como Paulinho Gasolina, PC era descrito como o caixa da campanha eleitoral de Fernando Collor.
A Polícia Federal informou que ele havia desviado “Pelo menos US$ 1 bilhão”. PC contestava o valor. A estrutura financeira descrita no livro incluía contas em bancos no exterior, paraísos fiscais e operadores estrangeiros. A Fiat Elba, comprada com dinheiro de contas de PC para o staff de Collor, tornou-se o símbolo da primeira prova documentada do dinheiro sujo do Collorgate.
Dias antes de a CPI do Congresso revelar o episódio do carro, Sá recebeu na Folha uma carta anônima. O remetente, que se identificava como mestre de obras, afirmava que PC financiava a reforma de um apartamento de Collor no bairro do Farol, na capital alagoana. O jornalista seguiu o endereço indicado para o escritório de decoração no Shopping da Gávea, no Rio de Janeiro, e confirmou a ligação entre o homem responsável pelo caixa e a reforma associada à primeira-dama.
A reportagem antes dos acervos digitais
A memória de Sá também é sobre o modo de fazer jornalismo nos anos 1990. A Folha chegou a vender mais de 1 milhão de exemplares aos domingos, e o repórter descreve uma rotina baseada em deslocamentos, conversas e documentos impressos. A internet comercial só chegaria ao país em 1995.
No período narrado, informações que hoje podem ser obtidas em mecanismos de busca, ferramentas digitais e acervos online de tribunais precisavam ser encontradas por meio de fontes e de funcionários públicos dispostos a fornecer cópias de documentos. O autor chama esse período de era da “notícia a lenha”.
A investigação sobre PC Farias aparece, assim, como mais do que a procura por um desaparecido famoso. Ela acompanha o funcionamento dos caixas de campanha, o fluxo de dinheiro que sustentou a candidatura de Collor e as relações entre empresários, políticos e operadores financeiros. Sá situa essa história em uma eleição marcada pelo medo de uma vitória de Leonel Brizola ou Lula da Silva e por doações em dólares ao comitê do Partido da Reconstrução Nacional.
Ao escrever o livro, em 2026, o autor contrapõe aquela experiência ao jornalismo contemporâneo, sem transformar a lembrança em defesa do passado. O episódio permanece como registro de uma investigação feita quando a informação ainda dependia do trabalho presencial e de uma rede de fontes construída fora das ferramentas digitais.


