SÃO PAULO — A expectativa por uma direção econômica para um possível quarto mandato de Luiz Inácio Lula da Silva terminou, entre empresários, com a avaliação de que faltaram respostas novas sobre as contas públicas e os juros. O presidente falou durante 38 minutos em um jantar realizado na noite de sexta-feira, 25 de setembro, no hotel Tivoli Mofarrej, na região da avenida Paulista.
Cerca de 700 empresários participaram do encontro, organizado pelos grupos Esfera Brasil, Prerrogativas e Parlatório. Antes do discurso, representantes de diferentes setores aguardavam indicações sobre produtividade, grau de investimento, redução da taxa de juros e uma eventual mudança na condução fiscal. Também havia incerteza sobre o resultado das urnas em 4 de outubro.
A mensagem sobre as contas públicas
Lula não apresentou sinais diretos de que um forte ajuste fiscal seria prioridade em um eventual novo mandato. Em sua fala, defendeu que a responsabilidade fiscal deve ser acompanhada de medidas voltadas à redução da desigualdade.
“Estabilidade fiscal é obrigatória, mas é preciso compreender o que aconteceu antes de a gente voltar”, afirmou Lula. Ele comparou o déficit de 2,8% recebido por sua gestão com o superavit de 0,1% que, segundo disse, seria entregue. A declaração foi aplaudida.
O presidente também afirmou que não aceita a redução da renda dos mais pobres e associou a elevação dos salários ao consumo. Disse que não se contenta com um salário-mínimo de R$ 2 mil ou R$ 3 mil, mencionando que o valor atual é de R$ 1.621.
A taxa de juros apareceu em outro momento do discurso. Lula atribuiu ao próprio setor produtivo parte da responsabilidade pela autonomia do Banco Central e afirmou que, por isso, os empresários não poderiam cobrar diretamente dele a definição da Selic. Também mencionou a manutenção de Henrique Meirelles por oito anos em suas duas gestões anteriores.
O que os empresários esperavam
Rodrigo Vidigal, CEO da Motorola no Brasil, disse que as empresas precisavam de maior clareza para planejar investimentos, independentemente de quem vencesse a disputa eleitoral. Para ele, a principal necessidade era conhecer o plano econômico para o período seguinte.
Rubens Ometto, fundador e presidente do conselho da Cosan, preferiu aguardar a fala do presidente antes de comentar quais temas esperava ouvir. Joesley Batista, controlador da J&F, também disse que era necessário escutar Lula e confirmou, por meio de um aceno, que a questão fiscal era importante.
Um CEO de uma companhia do varejo alimentar, que pediu para não ser identificado, relacionou a recuperação do setor à retomada do consumo fora do lar. Na avaliação dele, os consumidores continuam se alimentando, mas podem escolher opções mais baratas, e o varejo depende de uma direção macroeconômica.
Setores apresentam suas prioridades
Antes do presidente, três líderes setoriais falaram aos participantes. Gustavo Pimenta, CEO da Vale, destacou o potencial dos minerais estratégicos e da transição energética. Segundo ele, o desafio da empresa não está na demanda, mas na capacidade de ampliar a oferta desses minerais. Pimenta afirmou que o Brasil poderia dobrar a arrecadação com o desbloqueio desses projetos.
O encontro também foi marcado pela presença de Ivan Monteiro, CEO da Axia Energia; Milton Maluhy, CEO do Itaú; Isaac Sidney Menezes Ferreira, presidente da Federação Brasileira dos Bancos; Lirio Parisotto, empresário e investidor; Carlos Sanchez, presidente da EMS; e Joesley Batista.
Lula ainda comentou a atuação empresarial de Batista, a quem chamou de “empresário desaforado”, em referência aos planos de atuação da J&F em áreas além da produção de carne. O presidente também falou sobre soberania nacional, criticou Donald Trump e defendeu uma indústria forte.
O jantar ocorreu depois de um evento em São Paulo no qual Lula assinou uma medida provisória que proíbe imediatamente a exploração de apostas e jogos on-line. A medida também foi discutida no coquetel, principalmente em relação ao possível impacto sobre o consumo em setores afetados pelas bets.
Ao final, um dos executivos resumiu a avaliação de parte dos presentes: “Não foi dito nada de novo”. No entorno de Lula, porém, a interpretação era de que a mensagem havia sido clara.



