A região francesa de Beaujolais e a uva Gamay ganharam novo reconhecimento no cenário dos vinhos finos após o Juliénas Château des Capitans Safra 2023, da Les Vins Georges Duboeuf, receber 97 pontos e o título de Best in Show na edição de 2026 do Decanter World Wine Awards.
Por décadas, a dupla foi identificada principalmente com o Beaujolais Nouveau, vinho jovem, leve e popular. A premiação reforça uma mudança que já vinha sendo observada por críticos e especialistas: a produção local passou a ser associada também a rótulos mais complexos, estruturados, tânicos e com menor teor alcoólico.
A transformação de Beaujolais
Geoffroy de la Croix, dono de uma importadora no Brasil, afirma que as vinícolas da região vêm produzindo vinhos alinhados a esse novo interesse do mercado. A avaliação é acompanhada por especialistas como William Kelley, da The Wine Advocate, e pela escritora e Master of Wine Natasha Hughes, autora de The Wines of Beaujolais, lançado no ano passado.
A mudança começou a tomar forma nos anos 1980, em Morgon, uma das dez denominações Cru de Beaujolais. Marcel Lapierre, Jean Foillard, Jean-Paul Thévenet e Guy Breton passaram a recuperar métodos artesanais e menos intervencionistas. Conhecidos como Gangue dos Quatro, os produtores abandonaram pesticidas, leveduras de laboratório e a adição de açúcares nos tanques.
A resistência inicial não impediu que esses vinhos demonstrassem o potencial de pureza e expressão da região. O resultado atraiu casas tradicionais da Borgonha, interessadas tanto pela qualidade quanto pelas terras de Beaujolais, que, mesmo valorizadas, permaneciam mais acessíveis.
A Louis Jadot assumiu o Château des Jacques, responsável por vinhos como o Moulin-à-Vent AOC. A Joseph Drouhin passou a administrar os vinhedos históricos dos Hospices de Belleville, incluindo o Morgon Hospices de Belleville. Já a Boisset Family Estates, proprietária da Maison Mommessin, produz o Mommessin Morgon Les Grandes Mises, na Côte du Py.
Duas tradições na mesma taça
A chegada dos borgonheses levou à região técnicas como a retirada dos engaços, fermentações mais longas e envelhecimento em carvalho. Esses métodos passaram a conviver com práticas locais, entre elas a maceração semicarbônica, que utiliza cachos inteiros e favorece vinhos mais leves e frutados, característicos do Nouveau.
Outra vertente importante é a dos vinhos naturais. Jean Foillard produz o Morgon Côte du Py, enquanto Marcel Lapierre é responsável pelo Cuvée Marcel Lapierre. A aproximação entre as duas regiões tem uma ironia histórica: a Gamay, hoje identificada com Beaujolais, nasceu na própria Borgonha.
A variedade é resultado de um cruzamento natural entre Pinot Noir e Gouais Blanc e surgiu no vilarejo de Saint-Aubin, no século XIV. Por ser mais produtiva e resistente, espalhou-se pela região. Depois da peste medieval, a falta de mão de obra alterou as relações sociais e permitiu que camponeses cultivassem Gamay em terras próprias e em áreas arrendadas da Igreja.
A expansão desagradou à elite borgonhesa. Em 1395, o duque Filipe, o Ousado, proibiu a uva em seus domínios e favoreceu a Pinot Noir, associada à aristocracia. A Gamay avançou para o sul, onde encontrou condições favoráveis e passou a produzir vinhos acessíveis e fáceis de beber.
Do sucesso popular à reabilitação
Com as ferrovias do século XIX, os vinhos chegaram a Paris e o Nouveau conquistou trabalhadores e intelectuais. Nas décadas de 1860/1870, os vinhedos franceses foram atingidos pela filoxera, mas a Gamay respondeu ao tratamento disponível na época e se expandiu. Ela chegou a representar 98% do cultivo de Beaujolais.
O decreto de 1951 autorizou o comércio antecipado das safras, dando origem ao Beaujolais Nouveau. Georges Duboeuf levou o produto a uma operação internacional de grande alcance, sobretudo nos Estados Unidos e no Japão. Garrafas chegaram a ser transportadas de helicóptero e de Concorde para alcançar os mercados rapidamente.
A necessidade de produzir milhões de unidades em pouco tempo estimulou a industrialização. Técnicas de padronização e leveduras selecionadas reforçaram o perfil frutado, com aromas associados a banana e chiclete. O mercado, porém, se afastou desse estilo, e Beaujolais passou a carregar a reputação de produzir vinhos de baixa qualidade.
A retomada dos métodos artesanais e a entrada de casas borgonhesas ajudaram a reabrir a discussão sobre a região. No Brasil, ainda existe resistência, mas os preços dos vinhos da Borgonha têm levado o mercado de alta gastronomia a buscar rótulos da vizinha. Para Geoffroy de la Croix, “Hoje, Beaujolais tem vinhos que podem ser comparados com os borgonheses”.



