A inflação brasileira está dentro da banda do sistema de metas, mas o país mantém a maior taxa de juros reais do mundo. Para o economista Eric Gil Dantas, do Instituto Brasileiro de Estudos Políticos e Sociais (Ibeps), esse descompasso indica que a política monetária conduzida pelo Banco Central (BC) combate principalmente um problema que não corresponde à origem predominante da inflação.
O Comitê de Política Monetária (Copom) se reúne nesta terça (15) e quarta-feira (16), enquanto o mercado espera um corte de 0,25 ponto na Selic, de 14% para 13,75% ao ano. Seria a quinta redução seguida. Mesmo com o corte, o juro real permaneceria acima de 9% ao ano, patamar que, segundo a análise, não seria suficiente para alterar a natureza do problema.
Inflação e composição dos preços
O IPCA acumulado em 12 meses terminou agosto em 4,22%, dentro da meta, embora próximo do teto de 4,5%. Na série mensal iniciada em 1995, esse resultado está entre os 20% mais baixos da era do Real. Ainda assim, a taxa real de juros permanece no maior nível do mundo, em patamar comparável ao observado no ciclo de 2005-2006.
A análise divide os 377 subitens do IPCA em cinco grupos: preços administrados ou indexados, serviços, alimentação e safra, câmbio e commodities, e outros. A comparação considera o período pré-pandemia, de 2016-2019; o intervalo marcado pela pandemia, pela guerra na Ucrânia e pelo superciclo de commodities, de 2020-2022; e o período atual, de 2023-2026.
Preços administrados e serviços responderam por mais de 60% da inflação no período pré-pandemia e no atual. A participação dos administrados passou de 38,7% para 36,5%, enquanto a dos serviços caiu de 27,1% para 26,3%. Já câmbio e commodities, além de alimentação e safra, ganharam peso durante o choque e depois recuaram: foram de 10,6% e 14,3% para 19,3% e 28,1%, retornando posteriormente a 9,9% e 11,6%.
Para Dantas, essa distribuição associa a aceleração de 2020-2022 e a desinflação de 2023-2026 a guerra, clima e commodities, e não a uma demanda excessivamente aquecida. A relação entre volume e preço dos serviços também não confirma a hipótese de demanda: as correlações foram de 0,01 no pré-pandemia, 0,10 no choque e -0,17 no período atual.
No intervalo de 2016 a 2019, o preço dos serviços subiu 19,3%, enquanto o volume caiu 2,9%. No período atual, a alta de preços se concentra em janeiro, mês de reajustes do salário mínimo e de tabelas setoriais. A elevação de alimentos e combustíveis ocorre um mês antes da aceleração dos serviços, com correlação de 0,40. A interpretação apresentada é que os custos, e não a demanda, impulsionam os preços.
Impactos da Selic elevada
O custo fiscal da política também é destacado. Segundo o BC, cada ponto percentual da Selic mantido por 12 meses acrescenta cerca de R$ 68,9 bilhões às despesas anuais com juros da dívida pública. A análise afirma que esse gasto recorrente é usado para conter uma inflação que teria pouca relação com o excesso de demanda.
Nas famílias, o comprometimento da renda com o serviço da dívida passou de 22,3% em março de 2021 para 28,85% em junho de 2026, o maior nível da série histórica do BC, iniciada em 2005. O endividamento em relação à renda avançou de 42,5% para 49,75%. Para as empresas, a taxa real de juros do crédito para pessoas jurídicas subiu de 7,3% para 20% ao ano no mesmo intervalo.
A análise também questiona o canal cambial. A correlação mensal entre o diferencial Selic-Fed e a variação do câmbio desde 2000 é de 0,00. Entre janeiro de 2025 e agosto de 2026, o real se valorizou 12,5% diante do dólar, desempenho próximo ao do euro, de 11,9%, mas inferior ao do peso mexicano, de 20,4%, e ao do rand sul-africano, de 15,8%. O Brasil tinha diferencial de juros de dez pontos acima do Fed, contra três pontos no México e juros abaixo do Fed na zona do euro.
Dantas afirma ainda que parte relevante da formação de preços no Brasil olha para a inflação passada. Negociações coletivas, aluguéis, mensalidades e planos de saúde usam em grande medida o IPCA ou o INPC já observado, enquanto as expectativas futuras teriam efeito mais direto no mercado financeiro e chegariam à inflação de modo indireto.
Para o economista, juros altos também encarecem capital de giro e investimentos, podem estimular repasses de custos e reduzem a capacidade produtiva futura ao dificultar o financiamento de longo prazo. Por isso, conclui que um corte de 0,25 ponto não altera o problema central e defende uma mudança na condução da política anti-inflacionária.
Eric Gil Dantas é economista do Ibeps e doutor em Ciência Política pela UFPR.



