SÃO PAULO — O neurocientista Miguel Nicolelis vê a inteligência artificial como uma tecnologia diferente das ferramentas criadas anteriormente pela humanidade. Em vez de funcionar como uma extensão do cérebro, ela teria o potencial de absorver e assimilar seus criadores, invertendo a relação entre humanos e máquinas.
Professor emérito de neurobiologia da Duke University, nos Estados Unidos, Nicolelis apresentou essa interpretação durante a segunda edição do Encontro Futuro Vivo, promovido pela Vivo em São Paulo. A conversa foi mediada pelo psiquiatra Rodrigo Bressan, professor no King’s College London, livre-docente da Unifesp e presidente do Instituto Ame Sua Mente.
Nicolelis chama a inteligência artificial de Nina, expressão formada pelas iniciais de nem inteligente e nem artificial. Para ele, a inteligência é uma propriedade da vida orgânica, relacionada às estratégias de sobrevivência dos seres vivos. A tecnologia, por sua vez, depende de pessoas que marcam dados, treinam algoritmos e removem conteúdo.
Cérebro, mente e consciência
Na avaliação do neurocientista, o cérebro não deve ser compreendido como um computador dividido entre hardware e software. O órgão opera com matéria orgânica e é continuamente alterado pelas experiências com a natureza, outros seres humanos, animais e acontecimentos da vida.
A mente seria uma propriedade emergente de um cérebro inserido em um corpo, em um planeta e em uma sociedade formada por outras mentes. Por isso, Nicolelis rejeita a ideia de que ela seja um algoritmo ou algo inteiramente computável. A consciência, afirmou, continua sendo uma das questões centrais e não resolvidas da neurociência.
Ele também recorreu ao trabalho de Alan Turing para argumentar que existem fenômenos que não podem ser previstos por uma máquina. Nesse raciocínio, quando surge algo não computável, é necessário recorrer a um oráculo para decidir — papel que caberia aos seres humanos.
A comparação com os Borgs, personagens de Star Trek que assimilam outras formas de vida a uma consciência coletiva, serviu para ilustrar o risco apontado pelo neurocientista. A frase “The resistance is futile”, associada aos seres cibernéticos, representaria a ideia de que não haveria resistência possível. Nicolelis, porém, sustentou que a resistência continua nas mãos das pessoas.
Educação, memória e terceirização
A relação entre tecnologia e aprendizado também foi questionada. Nicolelis relatou que, em 2006, durante uma palestra em Davos, contestou a proposta de colocar um computador nas mãos de cada criança sem evidências científicas de que isso melhoraria a aprendizagem.
Ele citou experiências na Finlândia e na Suécia. Em 2019, ao falar na Escola de Educação da Universidade de Helsinque, ouviu que a Finlândia havia realizado um estudo de 30 anos e pretendia retirar os computadores das salas de aula. A justificativa apresentada foi a perda de vocabulário, criatividade, capacidade de interpretar textos e habilidade de convivência em grupo. A Suécia teria chegado à mesma conclusão seis meses atrás.
Nicolelis também afirmou que, dos anos 1950 até agora, estudantes americanos do último ano do ensino médio perderam 30% do vocabulário. Segundo ele, parte dos alunos passou a pular palavras das frases para ganhar velocidade, sem necessariamente ampliar a capacidade de compreensão.
O neurocientista relacionou a terceirização de funções mentais à memória espacial. Motoristas de táxi de Londres, que precisavam se deslocar pela cidade sem auxílio, apresentavam um hipocampo maior que a média da população. Em contraste, um estudo realizado nos Estados Unidos encontrou um hipocampo menor entre pessoas que usavam apenas o Waze, em comparação com o grupo de controle.
Ele citou ainda um estudo do MIT no qual estudantes foram divididos em três grupos: um escreveu uma redação sem consulta, outro pôde usar o Google e o terceiro teve acesso ao ChatGPT. Após 30 minutos, 80% dos participantes do terceiro grupo não conseguiam citar uma única frase do próprio texto, enquanto os integrantes do primeiro grupo lembravam parágrafos inteiros.
Vigilância e automação
Para Nicolelis, a IA cumpre funções que vão além da produção de textos, imagens e vídeos. Uma delas seria convencer as pessoas de que são inferiores às máquinas e retirar delas a confiança para resolver problemas humanos. Por isso, ele rejeita a expectativa de que a tecnologia resolva problemas cuja solução ainda não foi encontrada.
Outra função apontada é a vigilância. Nos Estados Unidos, uma empresa chamada Flock combina câmeras que fotografam placas de veículos com informações usadas pela polícia para rastrear os deslocamentos da população. O sistema, segundo o relato apresentado no encontro, passou a ser usado também por policiais para localizar ex-namoradas e ex-mulheres. Em um caso, um delegado teria rastreado a ex-mulher 3 mil vezes em um único dia.
A terceira dimensão seria a automação. Nicolelis descreveu a IA como um mecanismo estatístico capaz de completar a próxima palavra ou atender a pedidos de vídeo e imagem, mas sem criar. Também afirmou que os sistemas dependem de data centers que consomem água e eletricidade e podem degradar a mente humana.
Ao retomar uma reflexão de Neil Postman e Lewis Mumford sobre o impacto das tecnologias, o neurocientista afirmou que nenhuma invenção é apenas aditiva ou subtrativa: ela reorganiza o ambiente e os hábitos. O relógio, nessa interpretação, teria sido decisivo para acostumar a mente humana a funcionar segundo uma sequência mecânica.
A preocupação central de Nicolelis é que a inteligência artificial altere a relação entre criatura e criador. Em vez de usar as máquinas como ferramentas, os seres humanos poderiam passar a se submeter à lógica delas. A resistência, em sua avaliação, depende de preservar a inteligência natural e de não aceitar que a máquina seja tratada como autoridade sobre a mente humana.



