Os motoristas de automóvel que trabalham por meio de aplicativos receberam, em média, R$ 2.873 por mês em 2025. O valor ficou acima dos R$ 2.805 obtidos pelos demais motoristas, mas a comparação muda quando o tempo de trabalho entra na conta: o rendimento por hora dos profissionais de plataformas foi de R$ 14,40, contra R$ 16,00 entre os que não usavam aplicativos.
A diferença está associada à jornada semanal. Motoristas de aplicativo trabalharam, em média, 45,9 horas por semana, enquanto os demais condutores cumpriram 40,4 horas. Assim, o ganho mensal ligeiramente maior veio acompanhado de 5,5 horas adicionais de trabalho por semana.
Dimensão do trabalho por plataformas
Os dados fazem parte da PNAD Contínua sobre trabalho por meio de plataformas digitais, realizada pelo IBGE. O levantamento identificou cerca de 2 milhões de trabalhadores de aplicativos de serviços no Brasil, o equivalente a 1,9% da população ocupada.
Desse total, aproximadamente 1,2 milhão atuavam no transporte de passageiros e 585 mil trabalhavam com aplicativos de entrega de comida e produtos. Considerando todo esse grupo, a renda média mensal foi de R$ 3.147 em 2025, praticamente igual aos R$ 3.148 registrados entre trabalhadores não plataformizados do setor privado.
A diferença aparece novamente na duração do trabalho. A jornada média dos trabalhadores de plataformas foi de 44,7 horas semanais, ante 39,3 horas entre os demais ocupados do setor privado. O rendimento por hora ficou em R$ 16,20 no primeiro grupo e em R$ 18,40 no segundo, uma distância de cerca de 12%.
Entre os trabalhadores de aplicativos, os homens representavam 84,4%. A faixa etária de 25 a 39 anos correspondia a 47% do total, enquanto 62,5% tinham ensino médio completo ou ensino superior incompleto.
A flexibilidade de horários foi apontada como principal motivo para trabalhar com plataformas, citada por 26,8% dos entrevistados. Depois apareceram a dificuldade de encontrar outro emprego, com 24,6%, e a avaliação de que a renda seria maior do que a oferecida por outras alternativas, com 20,8%.
Renda pode ser usada em financiamento
A Caixa passou a considerar como formal a renda obtida por profissionais de aplicativos de mobilidade e delivery em seus processos de avaliação de crédito. Os recebimentos podem entrar na análise de financiamento imobiliário, inclusive em operações do Minha Casa, Minha Vida, desde que o cliente também atenda aos demais critérios do programa.
A medida não representa aprovação automática. O banco continua avaliando a capacidade de pagamento, o cadastro do cliente, as condições do produto e outros requisitos da operação.
Para comprovar os ganhos, o trabalhador precisa apresentar quatro meses consecutivos de extratos de recebimentos emitidos pela mesma plataforma. O comprovante mais recente deve ter sido emitido, no máximo, dois meses antes da avaliação do crédito. Também é necessário fornecer o resumo fiscal mensal gerado diretamente por empresas como Uber, 99 ou iFood. Esse documento não corresponde à declaração anual do Imposto de Renda.
O histórico permite verificar a recorrência, a consistência e a suficiência da renda informada ao banco. Por isso, o valor mensal recebido é apenas uma parte da avaliação financeira do motorista.
Previdência e dependência dos aplicativos
A cobertura previdenciária entre trabalhadores de plataformas ainda é limitada. Em 2025, 34% contribuíam para a Previdência Social. Entre motoristas de automóvel que trabalhavam por aplicativos, o percentual era de 25,5%. No grupo de motoristas que não utilizavam plataformas, 59,2% contribuíam para algum instituto de Previdência.
O levantamento também mediu o controle exercido pelos aplicativos sobre a atividade. Entre motoristas de transporte particular, excluídos os taxistas, 80,2% disseram que o valor a receber era definido integralmente pela plataforma. Outros 25,3% afirmaram que a jornada era influenciada por ameaças de punições ou bloqueios.
A relação entre empresas e motoristas também envolve uma ação civil pública do Ministério Público do Trabalho contra a Uber. O MPT pede R$ 321 milhões em indenização por dano moral coletivo e questiona a cobrança antecipada para acesso ao programa “Passe para Motoristas”, sob o argumento de que o mecanismo pode transferir riscos da atividade aos profissionais.
A Uber nega as acusações. A empresa afirma que o programa é uma alternativa comercial ao modelo tradicional de cobrança de taxa de serviço por viagem e que oferece maior previsibilidade de custos aos parceiros.
Os números do IBGE consideram o rendimento efetivamente retirado pelo trabalhador depois de despesas necessárias à atividade, como combustível. Dessa forma, a renda de R$ 2.873 por mês registrada entre motoristas de aplicativo deve ser analisada junto com a jornada, os custos de operação e a proteção previdenciária.



