A jornalista, escritora e militante feminista Maria Amélia de Almeida Teles, conhecida como Amelinha Teles, morreu nesta terça-feira (15), aos 81 anos. Presa e torturada durante a ditadura militar (1964-1985), ela dedicou sua trajetória à defesa dos direitos das mulheres e à busca por memória, verdade e justiça no Brasil.
Em entrevistas realizadas nos últimos anos, Amelinha relacionou a impunidade dos crimes cometidos durante o regime militar à permanência de setores autoritários no país. Também relatou a própria experiência como vítima da repressão, cobrou a responsabilização dos agentes da ditadura e analisou os avanços e os limites da luta feminista.
Em maio de 2025, ao comentar a responsabilização de militares envolvidos na tentativa de golpe para manter Jair Bolsonaro (PL) no poder, ela classificou o processo como um avanço democrático. “É um avanço, é respeitar o Estado Democrático de Direito”, afirmou.
Amelinha diferenciou o tratamento dado aos acusados pela tentativa de golpe daquele destinado aos crimes de lesa-humanidade cometidos pela ditadura. Enquanto os primeiros eram submetidos às leis e às instituições democráticas, os crimes do regime militar, segundo ela, foram escondidos e permaneceram impunes.
Memória como condição para a democracia
Quando o golpe de 1964 completou seis décadas, Amelinha criticou a transição democrática brasileira e cobrou uma política de Estado voltada à memória, à verdade e à justiça. Ela também defendeu a implementação das recomendações da Comissão Nacional da Verdade, a abertura dos arquivos militares e o ensino da história da ditadura nas escolas.
Para a militante, o desconhecimento sobre o período dificultava a consolidação democrática. Ela sustentava que não seria possível simplesmente virar a página sem contextualizar os acontecimentos e recuperar a verdade e a memória. Entre as questões ainda sem resposta, destacava a localização dos desaparecidos políticos e das desaparecidas políticas da ditadura militar.
Amelinha também apontava a ausência de responsabilização dos agentes do regime como um fator ligado à sobrevivência de setores autoritários nas Forças Armadas. Em sua avaliação, o Brasil mantinha uma tradição de apagar a história e silenciar sobre crimes de Estado.
Militância feminista e denúncia da tortura
A atuação de Amelinha na organização das mulheres começou ainda na juventude. Ela viveu na clandestinidade dos 20 aos 27 anos e, depois de deixar a prisão, participou do jornal Brasil Mulher, ligado à reorganização do movimento feminista durante a ditadura.
Sua trajetória incluiu mais de seis décadas de militância, trabalho de base com mulheres e participação na imprensa. Ela também atuou no Projeto Promotoras Legais Populares, voltado à formação de mulheres para o conhecimento e a defesa de seus direitos.
Amelinha, o marido e os filhos foram vítimas da repressão comandada por Carlos Alberto Brilhante Ustra, então chefe do DOI-Codi de São Paulo. A família Teles moveu uma ação que levou a Justiça a declarar Ustra torturador. Ao explicar a decisão de denunciar o militar, ela afirmou: “Eu denunciei não é por mim. Se eu não tivesse denunciado, teria enlouquecido”.



