BRASÍLIA — O presidente Luiz Inácio Lula da Silva e os líderes António Costa, Mark Carney e William Ruto anunciaram a criação da iniciativa Parceiros pelo Multilateralismo, conhecida como P4M. Em manifesto divulgado neste domingo (20), o grupo defendeu a renovação da cooperação internacional e reformas nas instituições multilaterais, especialmente na Organização das Nações Unidas (ONU).
A proposta é reunir países de diferentes regiões para atuar em temas como paz e segurança, inteligência artificial, mudanças climáticas, saúde e transformação digital. Os signatários afirmam que a iniciativa não será um bloco exclusivo nem criará uma nova estrutura burocrática. O objetivo, segundo eles, é fortalecer o sistema já existente, e não substituí-lo.
O manifesto descreve um cenário em que economias e sociedades estão mais conectadas, enquanto as relações geopolíticas se tornaram mais fragmentadas e polarizadas. Para os líderes, essa combinação expõe limitações do modelo atual, mas também reforça a necessidade de decisões conjuntas. Entre os desafios citados estão a emergência climática, pandemias, crises financeiras, conflitos e os efeitos do avanço da inteligência artificial.
Os autores sustentam que nenhum país consegue enfrentar sozinho problemas que ultrapassam fronteiras. A cooperação, nesse entendimento, deve ser tratada como uma necessidade prática, e não apenas como uma escolha baseada em princípios. A P4M também pretende aproximar governos que discordam em diferentes assuntos, mas reconhecem fundamentos da Carta da ONU, como a integridade territorial, a solução pacífica de controvérsias, os direitos humanos e a proibição do uso da força.
Conflitos e pressão sobre a ONU
Como evidências da deterioração do ambiente internacional, o documento menciona 65 conflitos armados envolvendo Estados em 2025, o maior número desde 1946. Também registra gastos militares globais de US$ 2,9 trilhões, equivalentes a cerca de R$ 14,9 trilhões. Os líderes afirmam ainda que o direito internacional está sob pressão e que vínculos econômicos vêm sendo utilizados para exercer pressão e coerção.
A iniciativa é apresentada em um período de dificuldades financeiras e institucionais para a ONU. Em junho, a Assembleia Geral aprovou uma alteração nas regras de financiamento. A então presidente do órgão afirmou que a medida evitou um “colapso financeiro iminente”, embora o problema estrutural de falta de recursos permanecesse.
A organização também enfrenta limitações para responder às guerras no Oriente Médio e na Ucrânia. As divergências entre grandes potências têm restringido a atuação do Conselho de Segurança, enquanto a ONU conduz um processo de reformas e redução de custos, com cortes de postos e alterações na estrutura administrativa.
Outro ponto em discussão é a sucessão de António Guterres, cujo segundo mandato termina em 31 de dezembro. Neste domingo, Michelle Bachelet abandonou a disputa depois de perder apoio em votações informais do Conselho de Segurança. Sete candidatos continuam no processo de escolha do próximo secretário-geral.
Assembleia Geral
O Debate Geral da 81ª sessão da Assembleia Geral começa na terça-feira (22) e vai até 28 de setembro, em Nova York. O Brasil será novamente o primeiro Estado-membro a discursar, com uma fala de Lula. O tema desta edição é “Restaurar a confiança, gerenciar a transformação: uma Organização das Nações Unidas que atenda a todas as pessoas”.


