SÃO PAULO — A leucotomia pré-frontal, procedimento que ficou conhecido como lobotomia, rendeu a Egas Moniz o Nobel de Fisiologia ou Medicina em 1949. A técnica consistia em destruir partes do cérebro para tratar transtornos psiquiátricos e, décadas depois, passou a ser rejeitada por suas limitações e consequências.
Desenvolvida por Moniz com o neurocirurgião Almeida Lima em 1935, a cirurgia partia da hipótese de que os transtornos mentais eram causados por circuitos cerebrais presos em loops de pensamento fixo entre o tálamo e o córtex pré-frontal. Ao cortar essas conexões, o médico acreditava que seria possível libertar o paciente do delírio.
O procedimento era realizado sob anestesia geral. O cirurgião fazia perfurações no crânio, na altura das têmporas, e introduzia instrumentos metálicos para cortar o lobo frontal. Eram seis cortes de cada lado, doze ao todo. Os pacientes podiam ser operados no mesmo dia em que chegavam ao hospital e retornar ao internamento psiquiátrico em até dez dias.
Da experiência com chimpanzés à consagração
A inspiração de Moniz veio de uma apresentação em um congresso em Londres. Pesquisadores de Yale haviam removido o córtex pré-frontal de um chimpanzé agressivo e observaram que o animal se tornara dócil e quase apático. Moniz aplicou a mesma lógica aos seres humanos.
A técnica foi recebida pela comunidade médica internacional e se espalhou para dezenas de países em poucos anos. Moniz publicou os resultados dos primeiros 20 pacientes em menos de um ano. Em 1949, o comitê do Nobel descreveu a leucotomia pré-frontal como uma descoberta “de valor terapêutico comprovado”.
As fragilidades da pesquisa original, porém, já estavam presentes. Os 20 casos não tinham grupo de controle nem acompanhamento de longo prazo. Além disso, parte dos pacientes classificados como melhorados havia se tornado apática e dócil, sem que isso significasse necessariamente uma melhora de saúde. A cirurgia era irreversível, e levantamentos da época registraram taxas de mortalidade de até 20%.
Expansão e declínio
Nos Estados Unidos, a lobotomia alcançou hospitais públicos superlotados e passou a ser realizada em grande escala. Um documento hospitalar de 1941 projetava operar 18 de 1.250 pacientes, a US$ 250 cada, com a expectativa de economizar US$ 351 mil em dez anos pela liberação de leitos.
Estima-se que cerca de 50 mil lobotomias tenham sido feitas no país entre 1936 e 1972. O benefício real teria ocorrido em apenas cerca de 10% dos casos.
No Brasil, a primeira leucotomia foi realizada em 25 de agosto de 1936, no Hospital Psiquiátrico do Juquery, em São Paulo, pelo neurocirurgião Aloysio Mattos Pimenta. Só naquela instituição, foram feitas cerca de 700 intervenções até 1949. A prática perdeu força por volta de 1956, na mesma onda mundial associada à chegada dos primeiros antipsicóticos.
Moniz continuou defendendo a técnica. Em 1954, um ano antes de morrer, publicou A Leucotomia Está em Causa, no qual reunia argumentos de defensores e críticos, mas mantinha sua defesa dos benefícios da invenção. Décadas mais tarde, familiares de pacientes lobotomizados nos Estados Unidos pediram a revogação do Nobel de 1949. O pedido não prosperou, e o prêmio continua registrado em nome de Moniz pela “descoberta do valor terapêutico da leucotomia em certas psicoses”.


