SÃO PAULO — As privatizações da Emae e da Sabesp, realizadas em 2024, estão no centro de questionamentos sobre possíveis vínculos entre o governo de Tarcísio de Freitas e o Banco Master. As conexões envolvem uma doação eleitoral de R$ 2 milhões, a participação de Nelson Tanure em operações relacionadas às duas empresas e a atuação de executivos que transitaram por companhias envolvidas nos negócios.
Tanure é apontado nas apurações da Polícia Federal como sócio oculto do Banco Master e era chamado de comandante por Daniel Vorcaro, controlador da instituição. Ele é investigado pelo Banco Central, pela Polícia Federal e pelo Ministério Público Federal.
A compra da Emae pelo Fundo Phoenix
No início de 2024, foi constituído o Fundo Phoenix, cujo beneficiário final era Tanure. A gestão cabia à Trustee DTVM, distribuidora de títulos e valores mobiliários ligada ao Banco Master. O fundo tinha como base ações da Ambipar, empresa de gestão ambiental cujo presidente do conselho era Carlos Piani, hoje presidente da Sabesp.
Em abril de 2024, o Fundo Phoenix venceu o leilão da Emae por R$ 1,04 bilhão. A empresa controla a elevação da água do Rio Pinheiros e também atua na geração de energia elétrica em usinas hidrelétricas no interior do estado.
As ações da Ambipar, usadas como garantia da operação, tiveram valorização superior a 700% entre abril e outubro de 2024. A Comissão de Valores Mobiliários suspeitou que fundos ligados ao Banco Master e a Tanure tenham atuado para elevar artificialmente o valor de mercado da companhia.
O pagamento pela Emae foi feito com recursos obtidos por meio de debêntures e de um empréstimo da XP. Depois da aquisição, o dinheiro mantido em caixa pela Emae foi usado para comprar debêntures da Light e aplicar em CDBs do Banco Master. A operação direcionou recursos da empresa adquirida para instituições que haviam financiado sua compra.
Em janeiro de 2025, quando Tanure presidia o Conselho de Administração da Emae, a empresa comprou R$ 160 milhões em CDBs do Letsbank, banco ligado ao conglomerado do Banco Master. Em maio, a CVM levantou a hipótese de que a valorização da Ambipar tivesse sido produzida artificialmente para favorecer a compra da Emae.
Em outubro de 2025, Tanure deixou de pagar o empréstimo contratado com a XP Investimentos. O banco executou a dívida e assumiu o controle da Emae. Mais tarde, sob a presidência de Piani, a Sabesp comprou a empresa do Fundo Phoenix.
A desestatização da Sabesp
Em junho de 2024, Tanure e integrantes do Banco Master procuraram o BNDES para articular um empréstimo destinado à compra da Sabesp. Participaram das reuniões Reinaldo Hossepian, diretor do Banco Master, e Karla Maciel, então assessora da área de fusões e aquisições da instituição.
Maciel havia liderado essa área durante as negociações da venda da Emae. Em outubro, tornou-se CEO da empresa e permaneceu no cargo até dezembro de 2025. Durante sua gestão, facilitou a compra de dívidas da Light.
Em julho de 2024, a Equatorial Energia passou a deter 15% das ações majoritárias da Sabesp, após vencer o processo de desestatização como única concorrente. Naquele período, Piani presidia o conselho da Equatorial.
A venda de 15% das ações foi realizada por R$ 6,9 bilhões, enquanto a companhia registrava lucros na ordem de R$ 56,2 bilhões. Ao todo, foram captados aproximadamente R$ 15 bilhões. Em 13 de fevereiro de 2026, as ações da Sabesp chegaram a R$ 152,50, alta de aproximadamente 127% em relação ao preço da desestatização.
A baixa concorrência também foi questionada, já que a Equatorial foi a única participante e grandes empresas globais do setor não entraram na disputa.
Executivos e possíveis conflitos
Karla Bertocco presidiu o Conselho de Administração da Sabesp antes de integrar o conselho da Equatorial, única interessada na compra da companhia. A situação levou a questionamentos sobre possível conflito de interesses.
Bertocco foi subsecretária de Parcerias e Inovação do Governo de São Paulo entre 2015 e 2018, presidiu a Sabesp até 2018 e dirigiu o BNDES até 2019. Até dezembro de 2023, ocupava uma cadeira no conselho da Equatorial. Hoje, atua na Orizon Valorização de Resíduos.
Em julho de 2024, a federação PT-PCdoB-PV na Assembleia Legislativa de São Paulo pediu ao Ministério Público de São Paulo que investigasse possível conflito de interesses e dano ao interesse público. O deputado estadual Paulo Fiorilo assinou a representação.
O documento afirma que atas de reuniões realizadas a partir de setembro de 2023 registram a participação ativa de Bertocco em discussões sobre a privatização. Também questiona a contratação, pela Sabesp, de uma empresa de assessoria financeira especializada sob a supervisão do conselho do qual ela fazia parte.
Investigações e respostas
Em março deste ano, o deputado estadual Antonio Donato apresentou ao Ministério Público de São Paulo uma representação sobre a possível manipulação das ações da Ambipar, a fiscalização do leilão da Emae, a falta de concorrência na venda da Sabesp, o preço das ações e a recompra da Emae pela Sabesp.
O pedido sustenta que, se comprovadas perdas patrimoniais decorrentes de decisões tomadas com dolo ou culpa grave, poderia haver lesão ao tesouro público. Também aponta a possibilidade de violação dos princípios da administração pública em razão de eventuais conflitos de interesses e da influência da doação feita por Fabiano Zettel, cunhado de Vorcaro, a Tarcísio nas eleições de 2022. O Ministério Público ainda analisa a representação, sem andamento registrado até o momento.
No início de abril deste ano, o Supremo Tribunal Federal rejeitou duas ações que buscavam suspender a privatização da Sabesp. Uma delas questionava a legislação municipal que autorizou contratos de abastecimento de água e esgotamento sanitário; a outra contestava a lei estadual que permitiu a desestatização da companhia.
A Sabesp afirmou que a compra da Emae foi aprovada pelo Conselho de Administração e examinada pelo Cade e pela Aneel. A empresa negou relação de Piani com o Fundo Phoenix e disse que ele deixou o conselho da Ambipar antes de assumir a presidência da Sabesp. Também afirmou não ter havido conflito de interesse relacionado a Bertocco.
A Emae informou que, em dezembro de 2025, uma decisão judicial descartou irregularidade ou conflito de interesses na atuação de Bertocco durante a desestatização. A sentença, datada de 3 de dezembro de 2025, julgou improcedente a ação popular que questionava a venda de ações para a Equatorial.
A Secretaria de Parcerias em Investimentos declarou que os processos seguiram critérios técnicos, transparência, participação institucional e as etapas previstas no Programa de Parcerias em Investimentos. Sobre a Emae, afirmou que a proposta vencedora ficou 33,68% acima do preço mínimo do edital e que a operação foi aprovada pelos órgãos reguladores competentes.
A secretaria também ressaltou que eventuais apurações sobre o mercado de capitais cabem à CVM. As investigações envolvendo Tanure e a valorização das ações da Ambipar permanecem sem desfecho informado no material disponível.


