MAGDEBURGO, ALEMANHA — Ulrich Siegmund, conhecido como Ulli, disputa neste domingo (6) a eleição para primeiro-ministro da Saxônia-Anhalt, estado do leste alemão que integrou a antiga Alemanha Oriental. Aos 35 anos, ele pode se tornar o primeiro político de extrema direita a chegar ao poder na Alemanha desde a Segunda Guerra Mundial.
As pesquisas projetam mais de 40% dos votos para a AfD, a Alternativa para a Alemanha. A sigla é classificada pelos serviços de segurança do país como de extrema direita comprovada. O partido questiona essa avaliação na Justiça em âmbito federal, mas o diretório estadual ao qual Siegmund pertence já recebeu essa classificação. Integrantes da legenda são investigados por discurso de ódio, referências nazistas e desobediência à Constituição.
Para assumir o cargo equivalente ao de governador, Siegmund precisa comandar uma maioria no Parlamento estadual. Ele afirma que seriam necessárias 45 cadeiras para uma maioria segura; os levantamentos mais recentes indicam que a AfD obterá pelo menos 39. Sem maioria, militantes e integrantes de grupos extremistas podem ir às ruas para alegar fraude. Siegmund, até agora, diz que respeitará o resultado das urnas.
Um estado marcado por memórias opostas
A eleição ocorre em uma região associada a personagens como Martinho Lutero, Otto von Bismarck e Friedrich Nietzsche, mas também aos episódios de violência praticados por skinheads e neonazistas contra imigrantes, homossexuais e ativistas há três décadas. Esse período ficou conhecido como os “Anos do Taco de Beisebol”.
A campanha de Siegmund explora principalmente referências à antiga Alemanha Oriental. Ele percorreu o estado em uma motoneta Simson, apresentada como símbolo dos chamados bons tempos, quando o russo era ensinado nas escolas e todos tinham emprego e moradia garantidos. O partido promete recuperar essas condições, embora seu programa não detalhe como faria isso.
Parte das propostas da AfD é inconstitucional ou está fora das atribuições de um governo estadual. O programa prevê deportações em massa de imigrantes em situação irregular, serviços de saúde sem estrangeiros, uma definição de família formada por homem, mulher e filhos e intervenções severas nas áreas de cultura e educação. As Igrejas Evangélica e Católica também são alvo, sob a alegação de que não seriam cristãs o suficiente.
Siegmund nasceu em 1990, depois da queda do muro de Berlim, e concentra seu discurso nas crises atuais. Ele atribui sua capacidade política ao entendimento das necessidades das pessoas. Antes de entrar na política, formou-se em psicologia corporativa e criou uma empresa de marketing olfativo com mais de 200 fragrâncias, entre elas a “Le Patron”, feita com notas de limão, maçã verde, cravo e canela.
Da CDU à liderança regional da AfD
Aos 18 anos, Siegmund se filiou à CDU, partido democrata-cristão de Friedrich Merz e Angela Merkel. Migrou para a AfD em 2014, durante a crise do euro, e foi eleito deputado estadual dois anos mais tarde.
Ele ganhou projeção nacional durante a pandemia ao criticar, nas redes sociais, o confinamento e as medidas de restrição sanitária adotadas pelo governo federal. Em 2024, tornou-se uma referência para a militância de extrema direita depois de ser identificado em uma reunião com empresários na qual se discutia a chamada reimigração, eufemismo usado para deportação forçada.
Na reunião, Siegmund teria explicado que pretendia parecer “um cara completamente normal, alguém com quem as pessoas pudessem se identificar”. Também defendeu que decisões políticas cruciais fossem tomadas nos bastidores e que a mudança ocorresse rapidamente, tornando a vida de imigrantes na Saxônia-Anhalt pouco atrativa. Comerciantes de origem estrangeira alertaram, na semana passada, para as possíveis consequências dessa política.
Apesar do conteúdo do programa, o candidato mantém uma apresentação contida nos eventos. A campanha foi marcada por passeios, fotografias com eleitores e autógrafos em exemplares de uma revista que o colocou na capa. O governo de Friedrich Merz já discute como impedir que um eventual gabinete da AfD tenha acesso a segredos de Estado ou a informações sensíveis da administração.
A possível vitória também teria impacto sobre a trajetória nacional do partido. Siegmund não é o nome da AfD para 2029, quando deve ocorrer a próxima eleição federal caso o governo Merz não caia. Aliados dizem que Berlim seria um objetivo para 2033, depois de Alice Weidel, principal nome da legenda. Antes disso, Siegmund precisa conquistar o governo da Saxônia-Anhalt.


