A defesa da democracia passa, para o autor, pela memória de pessoas perseguidas, presas, torturadas e obrigadas ao exílio durante a ditadura militar. Essa lembrança também orienta uma escolha diante do crescimento da extrema-direita, dos discursos autoritários e da transformação de adversários políticos em inimigos.
Em 1979, aos 11 anos, ele começou a compreender que a repressão não era apenas uma palavra nos livros. Os retornos de Leonel Brizola, Miguel Arraes e Dulce Maia, a presença de Paulo Freire e a história de Irmã Maurina Borges da Silveira — religiosa presa, torturada e banida — deram rosto às noções de ditadura, exílio, tortura, anistia e democracia.
Dessa experiência veio a convicção de que a democracia não é uma garantia permanente. Ela precisa ser protegida e cuidada continuamente, ainda que seja imperfeita e dependa de aprofundamento. É dentro dela, afirma o autor, que podem avançar a justiça, a liberdade, a igualdade, os direitos e a dignidade.
A praça e a redemocratização
Em 1984, durante uma passagem por Fortaleza ao lado do irmão gêmeo, Fabiano Piúba, o autor presenciou uma mobilização pelas Diretas Já na praça do teatro José de Alencar. O espaço reuniu Tancredo Neves, Ulysses Guimarães, Miguel Arraes, Leonel Brizola, Luiz Inácio Lula da Silva, Luís Carlos Prestes, Dante de Oliveira e Paes de Andrade, além de artistas, trabalhadores, estudantes e outros participantes.
A mobilização expressava o retorno público da palavra liberdade, depois de anos em que ela havia sido sufocada. Após a derrota da Emenda Dante de Oliveira, Tancredo Neves foi eleito pelo Colégio Eleitoral com a contribuição da Frente Liberal. Entre as lideranças mencionadas estão José Sarney, Marco Maciel, Aureliano Chaves e Antônio Carlos Magalhães.
Essa participação é apresentada como parte de uma redemocratização que também contou com uma direita democrática. Nessa leitura, a defesa das instituições podia superar divergências partidárias. O processo prosseguiu com a transição, a Constituinte e, em 1988, a Constituição Cidadã de Ulysses Guimarães.
A memória como experiência concreta
Anos depois, já adulto, o autor ampliou esse contato com o passado político ao atuar, ao lado de Roberto Monte, no Centro de Direitos Humanos e Memória Popular, em Natal. Ali, ouviu e entrevistou antigos presos e perseguidos políticos ligados à Insurreição de 1935, ao Estado Novo e à ditadura civil-militar iniciada em 1964.
Essas histórias deixaram de ser, para ele, apenas capítulos da História. Eram relatos de pessoas que estavam diante dele e narravam o que haviam vivido. A recordação dos exilados, dos presos e dos perseguidos se conecta, assim, à preocupação com os riscos presentes para a vida democrática.
Direita democrática e extrema-direita
A crítica apresentada não é dirigida à direita democrática. O autor afirma que ser de direita não equivale a ser fascista, autoritário ou intolerante e reconhece a legitimidade da direita, da esquerda e do centro no campo democrático. Também defende o diálogo com pessoas que compartilham suas ideias e com aquelas que pensam de modo diferente.
A objeção se dirige à extrema-direita, especialmente quando incorpora características neonazifascistas. Entre elas estão o desprezo pelas instituições, o culto à força, a criação de inimigos, a violência política, o racismo, a misoginia, a homofobia, a intolerância religiosa e a hostilidade ao diferente.
Segundo essa reflexão, a linguagem que desumaniza pode abrir espaço para agressões concretas. A cultura do ódio atinge pobres, mulheres, negros, pessoas LGBT e seguidores de religiões diferentes. A misoginia, o machismo, o racismo, a homofobia e a intolerância religiosa se espalham pelas redes sociais e ultrapassam o ambiente virtual.
Economia, direitos e cuidado com a natureza
A escolha política envolve também o modelo econômico. Uma possibilidade é colocar o mercado e a iniciativa privada a serviço da vida e do bem comum, preservando direitos sociais e trabalhistas, combatendo a fome e a desigualdade e fortalecendo saúde, educação e proteção social.
Outra é aceitar um ultraliberalismo econômico exclusivista e excludente, no qual os direitos aparecem como obstáculos e a dignidade humana fica subordinada ao lucro. A formulação defendida é que a economia deve servir às pessoas, e não o contrário.
Essa discussão também alcança a natureza. Quando tudo passa a ser tratado como mercadoria, rios, florestas, mares e territórios podem ser sacrificados pela ganância. Por isso, justiça social e cuidado com a Casa Comum são apresentados como dimensões inseparáveis.
A escolha diante do ano eleitoral
A oposição entre civilização e barbárie é descrita como uma pergunta ética, não como um ataque à direita democrática nem como slogan partidário. Civilização significa reconhecer o outro como pessoa, garantir direitos, preservar a democracia e subordinar a economia à dignidade humana. Barbárie corresponde a converter o diferente em inimigo, aceitar a exclusão, alimentar o ódio e se aproximar do autoritarismo.
Aos 58 anos, o autor afirma conservar em si tanto a criança que acompanhou o retorno dos exilados quanto o adolescente que viu a praça de Fortaleza mobilizada pela esperança democrática. Neste ano eleitoral, a questão proposta não é apenas em quem votar, mas qual país se deseja: medo ou esperança, ódio ou fraternidade, exclusão ou justiça social, intolerância ou diálogo, devastação ou cuidado, barbárie ou civilização.
A escolha declarada reúne democracia, dignidade humana, justiça social, liberdade, diálogo e fraternidade.



