BELO HORIZONTE — Ao menos cinco rompimentos de tubulações foram registrados em Belo Horizonte e na Região Metropolitana em um intervalo de três semanas, pouco depois da privatização da Companhia de Saneamento de Minas Gerais (Copasa). Entre os casos, estão duas adutoras, estruturas responsáveis pelo abastecimento de grandes áreas.
A presidente da Copasa, Marília Carvalho, afirmou que não há relação entre a mudança no controle da empresa e os problemas ocorridos no período. O Sindágua, sindicato que representa trabalhadores da área de água e esgoto em Minas Gerais, discorda. Para a entidade, os rompimentos revelam dificuldades estruturais acumuladas antes da desestatização.
Investimentos e manutenção
O sindicato sustenta que a Copasa já vinha sendo submetida a uma política de redução de custos e priorização da remuneração de acionistas. Na avaliação da entidade, esse processo começou em 2019, durante o governo de Romeu Zema (Novo), e foi mantido na gestão de Mateus Simões (PSD).
Para o Sindágua, a falta de investimentos contínuos, a redução de equipes especializadas e problemas de gestão da manutenção podem comprometer uma rede extensa, formada por adutoras, estações de tratamento e sistemas de distribuição. “Os trágicos rompimentos de adutoras ocorridos em sequência refletem diretamente a falta de investimentos estruturais no sistema, além de graves erros gerenciais nos processos de manutenção”, afirmou o sindicato.
A entidade argumenta que os efeitos de uma manutenção insuficiente não aparecem necessariamente no momento em que as decisões são tomadas. Eles podem surgir depois, com interrupções no abastecimento, vazamentos, reparos emergenciais e piora na prestação do serviço. A substituição preventiva de uma tubulação antiga exige gasto antes de haver uma falha visível, enquanto o corte de equipes pode produzir uma redução imediata nas despesas da empresa.
Antes da privatização, o Estado de Minas Gerais detinha 50,03% das ações ordinárias da Copasa e mantinha o controle político e decisório da companhia. Com a oferta pública de ações que encerrou o processo de desestatização, a empresa passou ao modelo de corporation. A participação do estado caiu para 5,03%, e o governo deixou de ser o controlador.
Mudanças no quadro de trabalhadores
A política de pessoal também está no centro da divergência. Trabalhadores denunciaram remoções para unidades situadas a centenas de quilômetros de suas residências. Em alguns casos, a distância chegaria a 900 quilômetros.
Durante uma audiência na Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG), Wanderci Gomes, diretor financeiro do Sindágua, relatou que empregados com décadas de atuação em determinados municípios receberam ordens para assumir funções em outras localidades. O sindicato afirma que a transferência de profissionais experientes pode levar à perda de conhecimento sobre as características das redes, os problemas recorrentes e as particularidades de cada município.
Segundo a entidade, a reorganização das equipes e o avanço das terceirizações podem reduzir a capacidade preventiva da companhia. A Copasa afirma, por outro lado, que as movimentações fazem parte de um plano de reestruturação organizacional e modernização administrativa elaborado desde 2024, com base em estudos técnicos de otimização operacional.
O debate sobre o modelo privado
O saneamento exige obras e manutenção permanentes, mas esses investimentos nem sempre geram retorno imediato. É nesse ponto que o Sindágua vê uma tensão entre a necessidade de preservar a infraestrutura e a busca por resultados financeiros para acionistas.
Um rompimento de adutora pode deixar dezenas de milhares de pessoas sem água, além de afetar escolas, unidades de saúde, estabelecimentos comerciais e moradores. Para o sindicato, a água não pode ser tratada como um serviço comum de mercado, porque o consumidor não consegue simplesmente deixar de utilizá-la diante de uma tarifa alta ou de uma piora no atendimento.
A experiência da Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp), privatizada em julho de 2024 pelo governo de Tarcísio de Freitas (Republicanos), é apresentada pelo sindicato como referência para a discussão em Minas Gerais. A empresa passou a receber críticas sobre abastecimento, atendimento, cobranças e tarifas. Também foram registrados rompimentos de tubulações e adutoras na capital paulista, na Região Metropolitana e no litoral.
Entre as reclamações mencionadas estão falta de água recorrente, cobranças consideradas abusivas, substituição de hidrômetros e precarização do atendimento. Para trabalhadores e entidades do setor, o caso paulista mostra a dificuldade de conciliar investimentos permanentes em infraestrutura com as exigências de rentabilidade de uma empresa privada.
O Sindágua afirma que mais de 800 casos de reestatização de serviços de água e saneamento foram registrados em 38 países, incluindo Alemanha e França. A entidade usa esses casos para sustentar que os custos de uma eventual deterioração do serviço podem acabar sendo assumidos pela sociedade.
Contratos com os municípios
A mudança também alcança os municípios que dependem dos contratos da Copasa. O governo de Minas definiu 28 de setembro como prazo para a adesão das cidades aos novos contratos, que podem se estender até 2073.
Mateus Simões tem pressionado prefeitos a aderirem ao modelo. Municípios pequenos, sem recursos ou estrutura técnica para criar sistemas próprios, podem ter maior dependência da companhia, segundo o Sindágua. A entidade avalia que essa dependência reduz o poder de negociação das prefeituras diante de uma empresa com interesses financeiros próprios.
A Copasa afirma que cumpre a legislação e mantém diálogo com os municípios concedentes. Também diz que pretende garantir a segurança jurídica, a continuidade dos serviços e a aceleração dos investimentos em infraestrutura para alcançar as metas de universalização.


