O Banco Central elevou de 79% para 90% a probabilidade de a inflação ultrapassar o teto da meta no último trimestre de 2026. A estimativa está no Relatório de Política Monetária divulgado nesta quinta-feira, o primeiro documento da autoridade monetária com projeções detalhadas após o Comitê de Política Monetária reduzir a taxa Selic para 13,75% ao ano, em reunião realizada nos dias 15 e 16.
A meta de inflação é de 3%, com margem de 1,5 ponto percentual para cima ou para baixo. O limite superior, portanto, é de 4,5%. O cálculo do Banco Central considera intervalos de probabilidade construídos ao redor de seu cenário de referência.
Inflação corrente perdeu força, mas BC prevê alta até dezembro
A inflação acumulada em doze meses caiu de 4,72% em maio para 4,22% em agosto. Entre junho e agosto, o IPCA ficou 0,90 ponto percentual abaixo do projetado pelo Copom em junho. No acumulado de doze meses, a diferença entre o resultado observado e a previsão chegou a 0,94 ponto percentual.
O Banco Central, contudo, considera esse alívio passageiro. Pelas estimativas mensais de curto prazo, o IPCA acumulado em doze meses deve voltar a superar o teto em outubro, com 4,61%. A projeção sobe para 4,85% em novembro e chega a 5,21% em dezembro.
No cenário de referência, a inflação acumulada em quatro trimestres recua para 4,4% no terceiro trimestre deste ano, mas avança para 5,2% no quarto trimestre. A previsão é de que o índice permaneça dois trimestres consecutivos acima do limite superior da margem de tolerância. A aproximação do centro da meta só ocorreria no primeiro trimestre de 2028, com 3,2%, mesmo percentual estimado no relatório anterior.
O relatório relaciona a piora de curto prazo a três elementos: o impacto do El Niño sobre alimentos in natura, a retirada, em setembro, do bônus de Itaipu nas contas de luz e a alta do petróleo. O cenário também considera a manutenção da bandeira tarifária amarela até dezembro, hipótese que o próprio Banco Central classifica como mais restritiva do que as indicações correntes do setor elétrico.
A probabilidade de 90% não representa, por si só, o descumprimento formal da meta. Desde janeiro de 2025, a meta contínua prevê que a inflação só seja considerada fora do objetivo quando permanecer além do intervalo por seis meses consecutivos, em qualquer mês do ano. Nessa situação, o presidente do Banco Central deve enviar uma carta aberta ao ministro da Fazenda.
Projeções para os próximos anos
Para 2027, a chance de a inflação superar o teto é de 33%; para 2028, de 16%. A probabilidade de o índice ficar abaixo do piso de 1,5% é nula neste ano e chega a 4% em 2027.
O cenário utilizado pelo Banco Central considera câmbio de R$ 5,15 e preço médio do petróleo Brent de US$ 90 no terceiro trimestre, com pico no quarto trimestre e recuo para cerca de US$ 84 no segundo trimestre de 2027. A trajetória dos juros segue a pesquisa Focus: Selic em 13,75% no fim de 2026, 12% em 2027, 10,50% em 2028 e 10% em 2029. Esses níveis permanecem acima da taxa de juro real neutra de 5% estimada pelo BC.
As expectativas de inflação para os prazos mais longos continuaram se afastando da meta. A mediana da pesquisa Focus para 2026 caiu de 5,30% para 4,90%. Para 2027, subiu de 4,10% para 4,30%; para 2028, passou de 3,68% para 3,80%. A previsão para 2029 ficou em 3,5%. O Copom aponta a desancoragem das expectativas como o primeiro entre os riscos de alta para a inflação.
O Banco Central também reduziu de 2% para 1,8% a projeção de crescimento do Produto Interno Bruto em 2026. A revisão considera a composição da expansão no segundo trimestre e o desempenho de indicadores no terceiro trimestre. Para 2027, a estimativa de crescimento é de 1,4%. A economia avançou 0,5% no segundo trimestre, depois de crescer 1,1% nos três primeiros meses do ano.
Petróleo ainda não se espalhou pela economia
Em uma análise específica, o Banco Central avaliou que a elevação dos preços do petróleo e de seus derivados, associada ao conflito no Oriente Médio, ainda não produziu efeitos amplos sobre preços e salários. Na Pesquisa Firmus, 77% das empresas disseram ter enfrentado custos maiores com derivados de petróleo e 86% relataram aumento em frete e logística. Apenas 43% afirmaram ter repassado esses custos aos preços de venda, sinalizando redução de margens.
No mercado de trabalho, a média dos reajustes nominais previstos em convenções coletivas caiu de 5,7% em fevereiro para 5,1% em agosto. No mesmo período de comparação interanual, o crescimento do rendimento médio nominal desacelerou de 9,6% para 8,0%.
As empresas, porém, elevaram suas próprias expectativas de inflação em todos os horizontes entre fevereiro e agosto. A previsão das firmas para o aumento do custo da mão de obra também passou a superar o nível de 2025. Por isso, o Banco Central mantém a avaliação de que ainda existe possibilidade de propagação do choque inicial para outros preços da economia.


