A pobreza e a extrema pobreza diminuíram em Minas Gerais desde 2022, mas o estado ainda não estruturou uma estratégia própria de enfrentamento compatível com a dimensão do problema. A avaliação é dos autores do estudo, que apontam contribuição estadual limitada tanto no orçamento quanto na formulação de políticas públicas.
O percentual de pessoas pobres caiu de 19,7% em 2021 para 13,9% em 2024, o menor nível da série histórica apresentada. Em 2025, o indicador permaneceu nesse patamar historicamente baixo. A trajetória anterior foi marcada por redução entre 2012 e 2015, aumento durante a crise de 2016 e 2017 e nova queda em 2020, quando o auxílio emergencial levou a pobreza a 17,4%. No ano seguinte, o índice voltou a se aproximar de 20%.
A extrema pobreza apresentou oscilações mais acentuadas ao longo da série. Em 2021, o percentual de pessoas nessa condição cresceu quase 4% em relação ao ano anterior, em um contexto de interrupção do auxílio. Depois disso, o indicador recuou e chegou a 4,8% em 2025. Os autores também relacionam a redução observada no fim da série à expansão das políticas de assistência social e ao aquecimento do mercado de trabalho, que ampliou a participação da renda do trabalho entre os mais pobres entre 2023 e 2025.
Desigualdade entre grupos
A melhora dos indicadores não alcançou os grupos de forma uniforme. Quase 4 milhões de mineiros vivem em situação de pobreza e um milhão estão em extrema pobreza. Mulheres, negros e crianças são atingidos de maneira mais intensa, com maior vulnerabilidade entre mulheres negras e crianças.
Mulheres negras registraram os maiores índices de extrema pobreza em toda a série analisada. Em 2025, a diferença em relação aos homens brancos foi de quase seis pontos percentuais, ou quase 4 vezes mais. Para os autores, esse resultado mostra que a redução geral da pobreza precisa ser acompanhada por políticas que considerem simultaneamente desigualdades de raça e gênero.
As crianças de 0 a 13 anos e os adolescentes de 14 a 17 anos também concentraram os maiores índices de extrema pobreza ao longo do período. A análise associa esse quadro ao risco de transmissão intergeracional da pobreza, porque a privação na infância pode comprometer escolaridade, inserção profissional e mobilidade social.
Orçamento estadual
Apesar da melhora dos indicadores, os gastos de Minas Gerais com assistência social perderam participação no orçamento. Dados do Portal da Transparência estadual mostram que a função representava 0,16% das despesas totais em 2023 e 0,17% em 2024, mas caiu para 0,13% em 2025.
Os valores liquidados também diminuíram: passaram de R$193.269.687,52 em 2024 para R$170.896.778,97 em 2025, uma redução de 11,58%. Nos últimos três anos, os recursos destinados especificamente a ações diretas de combate à pobreza não alcançaram 0,2% do orçamento total executado pelo estado.
Os autores defendem maior uso do Fundo de Erradicação da Miséria (FEM). Segundo a análise, parte relevante dos recursos com destinação específica não é incorporada ao Fundo, e sua inclusão quase dobraria os valores disponíveis. Também há críticas à aplicação de parte dos recursos em ações fragmentadas e despesas correntes, sem uma estratégia articulada.
Outra possibilidade apontada é a aplicação da alíquota máxima de 8% do ITCD, imposto sobre heranças e doações, apenas aos dois decis mais elevados de contribuintes. De acordo com estudo do Observatório das Desigualdades, essa medida permitiria praticamente triplicar o valor executado pelo FEM em 2025.
Com os recursos adicionais, seria possível financiar um programa de transferência de renda capaz de reduzir para menos da metade a extrema pobreza no estado, segundo o estudo. A conclusão dos autores é que Minas Gerais tem condições de formular e implementar uma política mais abrangente de enfrentamento da vulnerabilidade social.


