O adiamento de uma reunião entre o Irã e países do Golfo, previsto para discutir a reabertura do Estreito de Ormuz, ocorreu no mesmo dia em que os houthis reivindicaram ataques contra uma base militar no sul da Arábia Saudita. A combinação dos acontecimentos elevou a preocupação com as rotas marítimas e com a infraestrutura de energia da região.
O encontro seria realizado em Omã, mas o ministro das Relações Exteriores do país, Sayyid Badr Albusaidi, anunciou durante a madrugada que a reunião não ocorreria nesta segunda-feira. O Irã atribuiu a decisão a um pedido da Arábia Saudita. O estreito, principal rota mundial para o transporte de petróleo, está praticamente fechado desde os ataques dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã no final de fevereiro.
Danos ao transporte de petróleo
Um oleoduto saudita que liga a região leste ao oeste do país foi danificado em um ataque separado. Riad atribuiu a ação a combatentes apoiados pelo Irã no Iraque. A estrutura permite que as exportações de petróleo do Golfo evitem o Estreito de Ormuz, que está bloqueado.
Imagens de satélite registraram marcas de incêndio em trechos do oleoduto. A Arábia Saudita não informou quando o funcionamento poderá ser retomado. Operadores estimaram que uma interrupção prolongada reduziria em até 4% a oferta global de petróleo.
O petróleo bruto chegou a subir mais de 4% na reabertura dos mercados, após os acontecimentos do fim de semana. Durante a manhã nos Estados Unidos, porém, os preços recuaram. Os contratos futuros de referência do Brent tinham alta de cerca de 1,6%, negociados por aproximadamente US$106 o barril, às 14h30 (horário de Brasília). O diesel no varejo americano também atingiu uma máxima histórica, acima de US$6,23 por galão (3,8 litros).
Ataques e pressão sobre Washington
Os houthis, alinhados com o Irã, disseram ter lançado dezenas de mísseis e drones contra uma base aérea em Khamis Mushait, no sul saudita. Segundo o grupo, os alvos incluíam hangares, radares, pistas e depósitos de munição. A ofensiva foi apresentada como retaliação aos ataques aéreos da Arábia Saudita no Iêmen. Alertas de emergência foram emitidos na região e em outras três cidades do sul.
O grupo também avançou sobre áreas do Iêmen nos últimos dias e tomou a Ilha de Perim, na entrada do Mar Vermelho, na sexta-feira. Na semana passada, os houthis chegaram ao porto histórico de Mocha.
A Arábia Saudita lidera desde 2015 uma coalizão contra os houthis. O conflito havia perdido intensidade sob um cessar-fogo nos últimos anos, mas os combates foram retomados neste mês, com o grupo enfrentando forças ligadas ao governo reconhecido internacionalmente. A Organização Internacional para as Migrações estima que 82 mil iemenitas tenham deixado suas casas desde o início do mês.
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afirmou que o Irã quer negociar com Washington e disse que caberá a ele decidir se o país participará de um possível acordo. A declaração foi feita após o cancelamento da reunião entre os países do Golfo e o Irã.
O governo saudita informou que o príncipe herdeiro, Mohammed bin Salman, encontrou-se em Jeddah com o comandante regional americano, almirante Brad Cooper. Três fontes disseram que Washington vinha resistindo aos pedidos de uma intervenção militar direta da Arábia Saudita, limitando seu apoio à área de inteligência.
O reinício dos combates no Iêmen coloca Trump diante da pressão dos aliados do Golfo, enquanto o presidente tenta evitar a abertura de uma nova frente relevante no conflito regional. A campanha americana contra alvos houthis foi interrompida por Trump depois de dois meses de bombardeios, em 2025, quando ele chegou a um cessar-fogo com o grupo.
O secretário de Energia dos Estados Unidos, Chris Wright, afirmou que aumentou a média de navios que atravessam secretamente o estreito com apoio americano. O Irã divulgou uma relação com 77 embarcações que, segundo o país, desrespeitaram seus protocolos e poderiam receber multas, ser apreendidas ou confiscadas em travessias futuras.


