PORTO VELHO — A concentração de renda no Brasil está diretamente ligada à forma como o Estado arrecada recursos, afirmou Geyse Anne da Silva em palestra realizada no Instituto Federal de Rondônia, campus Zona Norte, em 27 de agosto de 2026. O encontro fez parte da Caravana da campanha Taxar Super-Ricos – A Justiça Tributária Começa no Topo e reuniu estudantes, professores e representantes de movimentos sociais.
A discussão propôs deslocar o tema dos impostos do campo exclusivamente técnico para o debate sobre democracia, direitos sociais e definição das políticas públicas. A questão central, apresentada por Geyse, é quem financia o Estado, quem se beneficia de sua estrutura e quais grupos suportam a maior parcela da carga tributária.
A carga maior sobre quem tem menos
O sistema tributário brasileiro foi descrito como regressivo. Isso significa que pessoas de menor renda comprometem proporcionalmente mais recursos com tributos, enquanto os segmentos mais ricos dispõem de mecanismos que reduzem o peso relativo da tributação sobre seus rendimentos e patrimônios.
A consequência, segundo a análise apresentada, é que os impostos deixam de funcionar apenas como instrumento de arrecadação e passam também a reproduzir desigualdades. A diferença aparece na comparação entre os rendimentos do trabalho e os valores associados ao patrimônio e ao capital.
Dados da pesquisa A raiz da desigualdade está no topo indicam que a participação do 1% mais rico na renda nacional teria aumentado de cerca de 20,5%, em 2017, para 24,4% entre 2022 e 2023. Dentro desse grupo, mais da metade da renda estaria concentrada no 0,1% mais rico. Já o 0,01% mais rico concentraria sozinho 6,3% da renda nacional.
Entre 2017 e 2023, a distribuição de lucros e dividendos teria crescido 72%, chegando a R$ 990 bilhões. No mesmo período, as rendas provenientes do trabalho e de benefícios sociais cresceram 9,3%. A comparação sustenta a pergunta sobre por que o trabalho é mais tributado enquanto rendas relacionadas ao patrimônio e ao capital permanecem menos oneradas.
Quem está no topo e quem enfrenta a desigualdade
A proposta de taxar os super-ricos não foi apresentada como uma cobrança indistinta sobre qualquer pessoa que tenha patrimônio ou renda acima da média. O foco está no extremo da pirâmide econômica, formado por pessoas que acumulam grandes fortunas e têm rendimentos profundamente vinculados ao patrimônio e ao capital.
A distinção também separa situações econômicas que não são equivalentes. Ter uma casa, um carro ou um salário de classe média não coloca alguém no mesmo patamar de quem acumula milhões ou bilhões de reais. Para Geyse, misturar essas realidades dificulta um debate sobre tributação baseado nas diferenças efetivas de capacidade econômica.
A concentração de riqueza também foi relacionada a raça e gênero. A pesquisa citada apresenta os super-ricos como um grupo de perfil demográfico definido, com predominância de homens e pessoas brancas. Na outra ponta, as mulheres negras aparecem entre as que mais sofrem os efeitos da precarização econômica e entre as que historicamente desempenham papel decisivo na organização comunitária e na defesa de direitos.
Por essa razão, a justiça fiscal foi tratada como parte do enfrentamento das desigualdades raciais e de gênero. Além de perguntar quanto dinheiro existe, o debate precisa considerar quem acumulou riqueza, quem teve acesso às oportunidades e quem permaneceu fora delas.
Universidade e mobilização social
A universidade pública foi apresentada como responsável por produzir evidências, questionar narrativas dominantes e ampliar a circulação do conhecimento. Ela pode investigar os efeitos de uma política tributária mais progressiva, gerar dados e qualificar a discussão, mas também precisa fazer com que essa produção alcance a sociedade.
Essa tarefa ganha importância diante da imagem de sucesso difundida nas redes sociais, frequentemente associada ao consumo, a casas luxuosas, carros de alto padrão e estilos de vida inacessíveis. A universidade pode ajudar a formular outra questão: por que alguns concentram tanto enquanto milhões ainda enfrentam dificuldades para garantir o básico?
A produção de conhecimento, porém, não foi apresentada como suficiente para alterar a realidade. A transformação dependeria também da atuação dos movimentos sociais. A expansão das universidades, as políticas de cotas e as conquistas trabalhistas foram citadas como mudanças resultantes de organização, pressão e luta coletiva.
A aproximação entre universidades e movimentos sociais reúne, nessa perspectiva, duas capacidades: a produção de informações e evidências e a transformação desse conhecimento em organização política e pressão social. A alteração do sistema tributário dependeria dessa articulação.
O destino dos recursos arrecadados
A discussão sobre a tributação dos super-ricos também envolve a origem dos recursos para financiar políticas públicas. Mais dinheiro no orçamento pode ampliar a capacidade de investimento em educação, habitação, saúde, infraestrutura e serviços públicos.
A proposta não foi formulada como uma disputa entre ricos e pobres nem como uma ofensiva contra quem construiu algum patrimônio. O princípio defendido é que uma capacidade econômica maior deve corresponder a uma responsabilidade tributária maior. Sob essa lógica, não seria coerente exigir sacrifícios mais elevados de quem tem menor capacidade de contribuir.
O debate também aponta para a reprodução do patrimônio ao longo das gerações, enquanto a maioria continua destinando parcela significativa da renda a impostos sobre consumo e trabalho. A justiça fiscal começaria no topo porque uma parcela decisiva da riqueza concentrada está nesse segmento.
A mudança, contudo, não dependeria apenas de uma alteração legislativa. Ela também exigiria conhecimento produzido nas universidades, mobilização dos movimentos sociais e disposição para questionar privilégios tratados durante muito tempo como naturais.
Para Geyse, taxar os super-ricos é uma escolha sobre o projeto de país: manter a concentração crescente nas mãos de poucos ou construir um sistema no qual a riqueza cumpra também uma função social. A definição de que Brasil será financiado pelos impostos passa, assim, pela justiça tributária.
Geyse Anne da Silva é membro do Grupo Diálogos de Extensão e Pesquisas Interdisciplinares (UECE/UNILAB), do Observatório das Metrópoles – Fortaleza e integra a Comissão de Articulação da Rede Dlis. É mestranda em Sociologia (UECE), graduanda em Sociologia (UNILAB) e bacharela em Humanidades (UNILAB). Também é coordenadora estadual de Mulheres do MNU Ceará e integra a Direção Estadual da CMP Ceará.



