A demora sem melhora concreta da operação pode reduzir o valor disponível para credores de empresas em recuperação judicial, avalia Armin Lohbauer, advogado especializado em Contencioso Cível do Barcellos Tucunduva Advogados. Nesse período, ativos podem perder valor ou ser consumidos pela necessidade de manter a companhia funcionando, diminuindo os recursos para pagamento caso o plano fracasse.
Lohbauer defende que os credores acompanhem ativamente a recuperação, em vez de apenas aguardar o cumprimento das etapas previstas. Entre os pontos que devem ser examinados estão a consistência econômica do plano, a capacidade de geração de caixa, o desempenho da operação, as projeções e a preservação ou venda dos principais ativos.
O alerta aparece em uma análise de levantamento da RGF Consultoria. Apenas 17,5% das empresas que entraram em recuperação judicial desde 2013 conseguiram concluir o processo. A maior parte das companhias avaliadas continua em recuperação, enquanto 10,7% faliram ou encerraram as atividades.
O resultado precisa ser lido também à luz do período de entrada das empresas no mecanismo: mais da metade ingressou entre 2023 e 2025. Por isso, muitas ainda estão executando os planos aprovados. Para o advogado, essa ressalva não elimina a dificuldade de casos em que a recuperação é solicitada quando a situação financeira já está muito comprometida.
“Muitas empresas chegam à recuperação judicial tarde demais, quando já perderam caixa, crédito, fornecedores e capacidade de investimento”, afirma Lohbauer. Segundo ele, o procedimento pode reorganizar dívidas, criar tempo para a negociação coletiva e ajudar na reorganização financeira, mas não resolve sozinho uma atividade que deixou de ser viável.
A manutenção da operação durante a reestruturação depende da geração de recursos. Capital novo, financiamento e venda planejada de ativos podem contribuir para recuperar a liquidez. Essas medidas, porém, precisam vir acompanhadas de mudanças na condução do negócio, incluindo gestão de crise, transparência, decisões rápidas e disposição para alterar a estrutura da empresa.
O uso da recuperação apenas para adiar o pagamento de dívidas, sem enfrentar as causas da crise, pode prolongar o procedimento e elevar o risco de falência. Sinais de dificuldade incluem previsões muito otimistas sem origem clara para os recursos, ausência de mudanças na gestão e nos custos e venda repetida de bens essenciais para financiar a sobrevivência imediata.
“Quanto mais a recuperação se prolonga sem uma melhora operacional concreta, maior pode ser a deterioração dos ativos da empresa”, ressalta o advogado. Para ele, transparência e negociação antecipada com credores relevantes aumentam as possibilidades de uma reestruturação economicamente sustentável.



